Ensaio: Camoes e Eminescu

Apresentação:

Infelizmente a quase totalidade dos leitores de Mircea Eliade ignora o seu arguto conhecimento de Literatura. Apaixonado por Papini e Balzac – sobre o qual intentou escrever um ensaio biográfico -, era igualmente entusiasta de todo o gênero da ‘litterature fantastique’, de quando sempre elogiava Kafka. Durante sua estada em Portugal, onde serviu como adido-cultural do governo Antonescu, interessou-se por Eça de Queiroz, seu segundo escritor preferido de língua portuguesa atrás de Camões, sua paixão declarada. Os Lusíadas, aos 24 anos, lhe inspirou curiosidade o bastante para começar a estudar o idioma português sozinho, ainda na Índia.

 »E, de repente, surgiram na minha memória as imagens dos parques na província portuguesa. Lembro-me da sua melancolia terrível. Mundos há muito mortos que só aguardam o punho vigoroso do bárbaro para se descomporem. »

De Lisboa, guardou a recordação das praças melancólicas como fundos de província, como descreve em seu diário, e da sensação de nostalgia que lhe parecia guardar o povo português. Jamais M. Eliade se esqueceria de Portugal, onde viveu seus últimos dias de contentamento, seguidos logo após da morte de sua primeira esposa, do despertar da Guerra, do comunismo romeno, que o expulsou para sempre de sua amada Romênia; dos anos seguintes no exílio – triste, pobre e angustiante em Paris.

Nesses felizes anos em Lisboa, manteve relações com a elite cultural portuguesa. Sua paixão por Camões e as civilizações marítimas o levou a pensar em escrever um livro sobre Os Lusíadas, projeto que nunca se confirmou. Neste mesmo interesse, M. Eliade escreveu ‘Eminescu e Camões’, publicado originalmente na revista romena Vremea, traduzido em parte para o jornal português Acção.

É sem dúvida obrigatória a leitura deste ensaio, tanto para os portugueses, como para os povos lusofônicos, bem como salientar as experiências luso-romenas que Eliade compara, neste caso como um crítico literário par excellence: aquele que a si incorpora, avalia e transmite a outrem a experiência dos povos. Por Eliade, vê-se que portugueses e romenos, instados nos opostos geográficos da Europa, estão mais estreitos na civilização ocidental do que se pensa – talvez mais, entre si, do que qualquer outra relação entre países europeus. Inclusive, uma curiosidade inédita que Eliade nos ensina, para acentuar a irmandade entre ambos os povos: há um correspondente em outro idioma para a nossa ‘Saudade’ – é o ‘Dor’, no idioma romeno. Assim, a expressão máxima da nostalgia, que Eliade percebera como elemento característico da cosmovisão portuguesa – e transmitida a nós brasileiros -, unicamente correspondente entre os romenos. Ele explica isso neste breve estudo desses dois grandes expoentes da Latinidade: Camões e Eminescu.

Grato,

José Santini

Camões e Eminescu
Por Mircea Eliade

 »A latina tribo é rainha »

(Vasile Alecsandri)

Quero começar por definir o objetivo deste artigo, que não é um trabalho de história literária comparada, e no qual não me proponho buscar as eventuais influências camonianas que se possam encontrar na obra do grande escritor romano Mihai Eminescu. Aproximando os nomes dos dois maiores poetas da latinidade, penso antes de mais nada na contribuição positiva que cada um deles trouxe ao enriquecimento do ‘gênio latino’.

Por vezes é bastante difícil falar do ‘gênio latino’.

Na verdade, como todas as expressões similares, esta é também bastante aproximativa, dada a amplidão das realidades que é preciso condensar numa fórmula sintética.

É difícil definir o conceito de raça, mas ninguém duvida da existência dum gênio nórdico, eslavo, oriental, expressão de cadauma destas raças e culturas.

A denominação de ‘gênio latino’ foi considerada excessivamente vaga, por se referir a reslidades bastante heterogêneas: Virgílio e Rabelais, o direito romano e a poesia medieval, Racine e Leopardi, S. João da Cruz e Voltaire, etc.

A minha opinião é que, pelo contrário, a expressão ‘gênio latino’ – pelo menos no sentido que costumamos atribuir-lhe – é demasiado rígida, porque não reflete suficientemente as realidades. Quando se fala em ‘gênio latino’ ou em espiritualidade latina, pensamos logo em Virgílio, Petrarca ou Racine. Imaginemos este ‘gênio latino’ como um reservatório inesgotável de valores espirituais claros, equilibrados, lógicos, eurítmicos. A multiplicidade de recursos criativos latinos reduz-se, desta forma, aum pequeno número de qualificativos: claridade, proporção, graciosidade, simplicidade, espontaneidade, etc.

Desta maneira limita-se o conceito de latinidade, em vez de se alargar o suficiente para que possa incluir todas as criações latinas.

Este erro que levou ao empobrecimento da noção de latinidade – pelo menos na linguagem corrente – é a consequência de um mal-entendido bastante frequente no século XIX: a concepção monovalente, monolítica, de uma cultura, do gênio numa raça, duma civilização.

Na origem deste mal-entendido encontra-se a teoria da ‘dominante’, da ‘faculdade preponderante’, simplificações tão exageradas quanto perigosas.

As relações espirituais são mutiladas pelos esquemas rígidos e simplistas: latinidade – amor pela clareza; espiritualidade germânica – propensão metafísica; anglo-saxões – empirismo; Ocidente – ação; Oriente – contemplação, etc.

Não é tão simples como tudo isso. A cultura, o gênio duma raça, não são monolíticos, mas polarizados.

Há na substância de cada cultura uma contradição originária, um conflito, ou melhor, uma ambivalência que apenas encontra equilíbrio em sínteses extremamente raras.

Por exemplo, costuma-se considerar, erradamente, que a contemplação constitui ‘a dominante’ da espiritualidade oriental. Na realidade, em qualquer cultura encontra-se sempre uma ambivalência bastante acentuada: contemplação – ação, misticismo – sensualismo; culto apaixonado da ‘forma’ – repulsa pela ‘forma’, etc. Não é este o momento para entrar em pormenores, basta lembrar que a espiritualidade indiana, por exemplo, não está orientada exclusivamente para a contemplação, para a indiferença perante as coisas terrestres, nem para a busca de um Nirvana qualquer, isto é, para a aniquilação do indivíduo e do mundo exterior; em simultâneio com esta tendência parao afastamento da realidade, depara-se, desde os inícios da cultura indiana até os tempos modernos, com uma forte tendência, igualmente criativa, para a ação, para a conquista da realidade, parao concreto.

Para além dos Upanishadas e do Budismo, existe o Tantra, que se propõe conquistar e dominar a realidade exterior e as forças psíquicas – para não mencionarmos as escolas materialistas, eróticas e cínicas.

Não nos esqueçamos também que, na obra mais importante da espiritualidade indiana, na Bhagavad-Gitâ, a acção é considerada como um instrumento de salvação, ao lado da caridade e da contemplação.

Por isso, não é exacta a afirmação que o’génio latino’ exclui sempre as criações que não se enquadram no esquema rígido: claridade, equilíbrio, etc.

Trata-se de génio «latino» mesmo quando este se exprime através do patetismo e da auto-ironia de Cervantes, do pessimismo de Leopardi, do fervor de Chateaubriand ou da riqueza confusa de Victor Hugo.

Devo acrescentar até que a missão do «génio latino» foi, sempre, esta mesma propensão para transformar em cultura as experiências mais diversas, as contradições mais inesperadas, as paisagens mais exóticas. Em comparação com outras estruturas espirituais europeias – germânica, anglo-saxónica, eslava – a latinidade manifesta-se como a mais rica, a mais complexa e a que possui uma capacidade ilimitada de se renovar, de se ultrapassar a si mesma e de renascer das suas próprias cinzas. Camões e Eminescu são duas ilustrações grandiosas desta força criadora.

Agora, algumas observações preliminares: há povos a quem cabe uma missão histórica, e outros cujo papel é passivo; estes últimos são povos que não interessam na história.

A missão histórica de um povo avalia-se em função das suas criações espirituais. Só os valores culturais justificam a existência e a missão de um povo. A história não leva em conta os povos estéreis.

Evidentemente, há nações ricas em criações colectivas – como são os tesouros folclóricos; outras há cujas aptidões se desenvolvem no sentido da criação individual, como por exemplo as culturas europeias modernas. Mas, fundamentalmente, trata-se do mesmo «gesto» espiritual: a criação.

As nações latinas herdaram essas esplêndidas tradições criativas.

Não podemos, dentro dos limites deste artigo, analisar se o elemento étnico latino foi ou não um factor preponderante na formação do pensamento e da criação espiritual – a língua, a fé, a cultura, a dignidade humana.

Talvez graças aos elementos autóctones que os colonos romanos assimilaram e latinizaram na Ibéria, na Gália, na Dácia, o génio latino se caracterize por uma extraordinária capacidade de mudança de carácter e de vivência no que respeita aos seus valores espirituais.

Nisto se vê uma grande semelhança entre a missão histórica de Roma e a do génio latino: a assimilação do mundo e a sua transformação em valores espirituais de circulação universal. Roma transformara os bárbaros em cidadãos romanos, transformara uma cultura local em cultura ecuménica: o génio latino transforma em cultura as «paisagens» mais variadas, dá uma significação espiritual até às experiências mais obscuras, mais áridas, mais insípidas.

Chegar a uma tal significação espiritual é chegar a um valor ecuménico, é transformá-la num objecto de circulação universal – ou fazer dela um instrumento de civilização e de dignidade humana. Desde há vinte e cinco séculos, o génio latino esforça-se por imprimir valores espirituais aos «objectos», «gestos», «paisagens» e «experiências» que antes estavam desprovidos de qualquer significado para as consciências humanas.

O Oceano com todos os seus mistérios, com os seus encantos escondidos, com a sua beleza, tinha sido até Camões um «objecto» sem significação espiritual.

O «Mar Tenebroso» era conhecido desde os tempos pré-históricos mas era como que um «dado imediato» da consciência, como um «facto», e não como uma fonte de emoções artísticas.

Uma obra de arte transforma o mundo quando surge; quem lê Virgílio «experimenta» a primavera duma maneira inédita e especial; o génio de Balzac obriga-nos a olhar com encanto para as coisas, as mobílias, o bric-à-brac das famílias burguesas que até ele estavam totalmente desprovidos de interesse artístico.

Dostoievsky convenceu-nos de que o subsolo da alma humana, as experiências que até ele eram consideradas de interesse quase exclusivamente clínico, têm um valor espiritual, um sentido moral e até um significado metafísico. Marcel Proust transformou em valores estéticos, em objectos de contemplação estética o microcosmo da «experiência» humana não-diferenciada e, depois de ler À la recherche du temps perdu ninguém se sente o mesmo, porque Proust modificou realmente o mundo, criando no indivíduo novas capacidades para a compreensão das realidades exteriores e da sua própria alma.

A lista poderia continuar: Shakespeare, Goethe, Novalis, Edgar Poe, Unamuno…

O que Camões trouxe de novo para a cultura universal foi precisamente a transformação em valores espirituais das «geografias» e das experiências anteriormente consideradas «bárbaras» e sem nenhum significado superior.

Rémy de Gourmont escreveu uma vez que o mar é uma descoberta dos românticos. Isso poderia ser verdade para o mar nórdico, embrulhado em nevoeiros, povoado de fantasmas. Mas o glorioso Atlântico e os mares orientais são uma descoberta estética de Camões. Pelo seu génio, graças à sua obra, a paisagem marítima fica incorporada no universo estético e transforma-se em objecto de contemplação, em fonte de emoções artísticas.

Camões justifica no plano estético as descobertas marítimas e as conquistas coloniais portuguesas.

Tal como os navegadores e os colonos portugueses alargaram consideravelmente o universo geográfico do seu tempo, da mesma maneira Camões aumentou o universo estético contemporâneo e, indirectamente, a vida espiritual do seu tempo. Pois é óbvio que a transformação dum nível cósmico em objecto de contemplação artística não é um facto que interesse apenas à história da arte.

Fazer de um «Mar Tenebroso», conhecido até então apenas pelos marinheiros e pelos pescadores, um objecto de contemplação estética, é transformá-lo num alimento espiritual acessível a qualquer pessoa.

Seria ingénuo pensarmos que o alimento espiritual não modifica o ser humano; e seria igualmente ingénuo pensarmos que, se a descoberta da agricultura, por exemplo, revolucionou por completo a natureza humana, a descoberta estética do oceano ou da flora tropical ou do exotismo não tenha tido consequências para a integridade espiritual do homem.

Nós, os modernos, descuramos as consequências cosmológicas de todas as experiências humanas, desde a mais elementar (por exemplo, a alimentação) até à mais complexa (por exemplo, a penetração num universo mental imediato).

Mas a verdade é que a presença deste objecto de conhecimento (e qualquer objecto, logo que adquire um «sentido», torna-se «objecto de conhecimento») modifica a estrutura espiritual do homem, mesmo sem que este se dê conta.

Camões, que alargou consideravelmente o «universo estético» europeu, que deu valor artístico a uma infinidade de fragmentos que antes tinham sido considerados sem interesse estético, que transformou em objectos de contemplação as paisagens bárbaras, as plantas exóticas, as curiosidades etnográficas, – contribuiu para a modificação do universo mental do homem da Renascença.

Não nos podemos alimentar com «a rica Malaca», com «a nobre Taprobana», com «a costa que se chama Champa», com «Bornéu onde não faltam / lágrimas no licor» ou com «Timor que o lenho manda / sândalo salutífero» e não nos alimentamos com… «uma figura sólida e cheia de saúde, de grande porte e disforme, com a cara carrancuda e o cabelo em pé»… sem que sejamos influenciados por todos estes «alimentos» exóticos aos quais Camões tirou as toxinas e a que aumentou a beleza.

Chateaubriand criou a «moda» exótica e Camões justificou com o seu génio uma corrente exótica muito complexa que começou com a apologia do «bom selvagem» no século XVIII e acabou com Gauguin, com a música negra e com a moda da «pele bronzeada» dos nossos dias.

Não se deve perder de vista que também foi Camões quem, com «Aquela cativa», provocou uma verdadeira revolução das normas estéticas europeias. O ideal europeu de beleza feminina tinha sido sempre a loura, desde Helena de Tróia a Isolda, Blanchefleur, Beatriz e Laura.

Talvez tenha sido um símbolo solar ou uma superstição aristocrática, pois a pele branca prova uma ascendência nobre de mulher que não trabalha o campo, mas leva uma vida agradável no seu castelo.

A revolução camoniana consistiu no facto de ter legitimado não apenas as belezas morenas, mas também as belezas bárbaras e exóticas, mulheres negras como «aquela cativa» ou chinesas como Dinamene.

Evidentemente, não se pode esgotar em algumas linhas o interesse da revolução camoniana no seu sentido estético e moral. (Tencionamos tratar mais amplamente este assunto no estudo «A ilha dos amores e as geografias míticas» e no livro Camões, uma tentativa de filosofia da cultura.)

Queremos, no entanto, evidenciar já a missão latina do grande escritor português, que integrou no universo estético europeu inúmeras «terras desconhecidas», que transformou em «bens espirituais» uma infinidade de tesouros desconhecidos, que enriqueceu a substância da latinidade com experiências, com paisagens e com «gestos» considerados até então sem nenhuma possibilidade de serem transformados em objectos de contemplação, em valores espirituais de circulação.

A intervenção de Camões no universo mental europeu permite-nos compreender melhor a latinidade.

E óbvio que esta contribuição de Camões contradiz a fórmula do génio latino reduzido a apenas alguns atributos como a elegância, o equilíbrio, a clareza, etc.

Encontramos um fenómeno semelhante no outro extremo da latinidade europeia: na Roménia.

É o caso do poeta romeno Mihai Eminescu (1850-1889), um dos maiores génios líricos da latinidade, que também contribuiu duma forma extraordinária para o alargamento do horizonte espiritual europeu como «conquistador de novos mundos». Tal como Camões, Eminescu explorou uma vasta e selvagem «terra incógnita» e transformou em valores esprituais experiências anteriormente consideradas como desprovidas de significado. Camões enriqueceu o mundo latino com paisagens marítimas, com flores estranhas, com belezas exóticas. Eminescu enriqueceu o mesmo mundo com uma novidade geográfica, a Dácia, e com novos mitos.

Evidentemente, antes dele, a poesia popular romena – uma das mais ricas do mundo – tinha criado com os mesmos materiais certas obras-primas; Eminescu não é apenas um continuador dessa inspiração popular, mas também um génio autónomo, criador de mitos.

A Dácia era para os primeiros colonos romanos um país bárbaro povoado pelos citas e pelos getas, sacudido pelas tempestades de neve que vinham das estepes russas.

Lembremo-nos dos lamentos de Ovídio no seu exílio em Tomis (Constan a de hoje), à beira do Mar Negro: «Este céu e estas águas são insuportáveis. Não sei porquê, até esta, terra me repugna» (Tristes, III, 3).

E ainda: «Aqui não há nenhum livro que nos sirva de alimento espiritual; ninguém a quem possa ler os meus versos ou que seja capaz de os compreender. À frente dos olhos só vejo trácios e citas» (ibidem, III, 14).

Em resumo, um país bárbaro, fora da civilização. Bárbaro significa em grego «o que gagueja», quer dizer, que não se exprime correctamente.

As legiões de Trajano, o génio colonizador de Roma, a civilização latina transformaram esta região bárbara na Dacia felix, na mais rica província do Império romano.

A língua latina, criando uma outra língua, a romena, ajudou os habitantes da Dácia a expressarem-se, correctamente, noutras palavras, a perderem o seu «gaguejo» de bárbaros.

Tal como as legiões romanas as englobaram na civilização europeia, o génio criador do povo romeno englobou na cultura europeia uma nova paisagem e novas experiências espirituais.

Através de um poema de Eminescu, Prece de um Dácio, a sensibilidade latina ficou enriquecida com uma visão da vida que não se assemelha a nenhuma das dos poetas pessimistas da Europa.

A sua obra prima, Luceaf rul («Vésper»), pode ser considerada como um dos mais belos poemas da literatura universal e a sua metafísica, a dimensão cósmica do drama de Hypérion, a beleza estranha, dir-se-ia litúrgica, dos seus versos, são acréscimos ao universo mental da latinidade. Esta «geografia bárbara», que era a Dácia para os primeiros romanos, deu origem a uma experiência pessoal da vida, a uma Weltanschauung específica, a uma atitude característica perante o Universo e perante Deus.

Através de alguns magníficos poemas de Eminescu – como, por exemplo, Melancolia, Mortua est, Epístola I, Doina, Glosa – um mundo inteiro, antes desconhecido, entra no património comum da humanidade.

Uma doce resignação ante a evolução universal, um melancólico desejo de reintegração no Cosmos, de restauração da unidade primordial (quando o indivíduo fazia ainda parte do Todo), um sentimento de solidão metafísica e
especialmente a inefável saudade romena enriqueceram o repertório espiritual latino.

O pessimismo de Eminescu tem origem numa visão trágica da existência, mas esta visão é sóbria, digna, viril, e nela reconhece-se a resignação calma dos dácios e o seu desprezo pela morte e pelos sofrimentos físicos.

O génio latino enriqueceu-se através da criação poética de Eminescu tal como se enriqueceu através das obras de Camões.

Estes dois exemplos são suficientes para nos convencermos de que o «génio latino», longe de se repetir indefinidamente através de criações estereotipadas, possui, pelo contrário, uma prodigiosa capacidade de renovação, transformando sem cessar as matérias brutas em valores espirituais, absorvendo incansavelmente «novas geografias» e novos universos espirituais.

O universo mental da latinidade é um expanding Universe em perpétua transformação e movimentação.

Só quem desconhece a riqueza e a variedade das criações da latinidade pode acreditar na esterilidade do seu génio. Só quem aprecia o génio latino apenas em função de certos escritores franceses e reduz a latinidade ao binómio Racine – Paul Valéry pode acreditar no esgotamento da capacidade criativa da espiritualidade latina.

Pelo contrário, a existência de um Unamuno, de um Rebreanu, de um Italo Svevo, etc. – para falar apenas em alguns dos prosadores contemporâneos – confirma o vigor, a variedade, a altura de nível da criação latina recente. Realmente, os nomes que acabo de citar constituem, dentro da mesma família, três variedades totalmente diferentes.

É, no entanto, óbvio que, para nos darmos conta da verdadeira estrutura do génio latino e para compreender bem a sua missão, é necessário renunciar aos nossos cosmopolitismos mentais e pensar nas realidades, deixando de lado as fórmulas já consagradas e as palavras sem sentido.

Pensar nas realidades implica um conhecimento directo das coisas, – conhecimento que, infelizmente, poucos têm.

Somos os escravos dos modelos estrangeiros; somos clientes fiéis das livrarias francesas, onde não se encontram autores portugueses, romenos, italianos ou espanhóis. E, por causa desta ignorância – que se deve à nossa facilidade de conhecermos o mundo através de apenas uma língua ou duas – nós, os latinos, sofremos hoje de um complexo de inferioridade.

Cada um de nós sente-se empobrecido; mas os únicos responsáveis por este empobrecimento somos nós, pois ninguém nos impede de aprendermos outras línguas românicas, de conhecermos outras espécies de espiritualidade latina.

O «génio latino» continua a criar e a alargar o universo mental da humanidade. Hoje, tal como no passado, são válidos os versos do poeta romeno Vasile Alecsandri:

«A latina tribo é rainha/Entre as outras grandes do mundo».

Revista Vremea, ano XVI (1943), 9 de Maio, No. 687, pp. 8-10. Tradução do romeno de Anca Ferro

 



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