Admirações: Carlos Lacerda

Eu volto a folhear ‘Degustações’, o livro de memórias de Antônio Carlos Villaça; bem antes de dormir. Eu não o percebera durante a primeira leitura, meses atrás: que Carlos Lacerda morreu aos 63 anos. 63!, em pleno uso de suas forças. A idade do guerreiro! Os verdadeiros generais morrem nessa idade.

Lacerda foi um guerreiro. Villaça lembra o dia em que andaram de barco em Parati. Lacerda na direção da lancha, observou Villaça, cumpria seu destino e confirmava naquele ato a imagem que concentrava todo seu caráter: a de um centauro.  »Por las orejas y las patas », como ele dizia na CCJ da Câmara, 1957, em sua defesa. Aquele discurso (está disponível no YouTube): que exercício de biografia!; e que domínio de si mesmo. Ali está um centauro em meio a um labirinto; o caçador diante da serpente. Quem domina a palavra tem a vontade por domínio -- mas não a palavra escrita: somente a palavra falada, a oratio, isso que já não sabemos o que é por miséria de nosso tempo, que se é escasso em idéias, e por conseguinte, em vontade, em ação, e em liberdade!, que dirá em retórica, que é a ciência do homem livre por excelência. 

Lacerda era tímido, lembra Villaça. Lacerda grave, sim: era grave; mas triste, nunca! Melancólico, jamais. Forte, resoluto: nunca desesperado. Um dia, na frente de Villaça, chorou. Ele leu o discurso de despedida que Malraux compôs para Le Corbusier defunto. Lacerda lia o discurso com seu tom grave; ao terminá-lo, olhou para baixo, chorou. Ali, diante de Villaça. Leu ‘O Problema da Liberdade’, de Fulton Sheen (aquele bispo americano que escreveu ‘O Mistério do Amor’, livro obrigatório para qualquer pai-de-família) -- um dos livros que mais o marcaram. Era muito culto, e obcecado pelo problema da liberdade. A liberdade só existe quando o homem age, no domínio de sua vontade, consciente e responsável pelos seus atos. Lacerda almejava as grandes responsabilidades, destinos hercúleos, lutas com deuses minotáuricos e inquéritos com esfinges enigmáticas. Seu pensamento inclinava-se ora para as grandes meditações, ora para a luta como manifestação da ação política. Por isso, sucumbiu à história. Era fatal, e ele o sabia.

Sabia-o ainda mais quando percebeu, depois de 68 - do Contra-Golpe de 68 -, que toda ação lhe era furtada. Na entrevista que deu à TV Tupi (disponível no YouTube), vemos um Lacerda cabisbaixo, sereno, sentado. Já não podia mais agir. Decerto sentia saudades dos anos de Vargas: ao menos tinha com quem lutar; e da luta nasciam os homens públicos, os ódios declarados em alto e bom som, como leis de redenção e anistia. Odiava-se, porque a política era a arte de dominar a vontade dos homens, não um jogo barato de administração fiscal, a gestão do erário para construir esgotos e distribuir coletores de esperma. A história da República de Getúlio Vargas a Ernesto Geisel é uma história de ódios. No eixo das disputas está ele, Carlos Lacerda, a voz impávida do homem seguro de seu destino trágico, pois aceitou, quis, e lutou pela realização de suas potências morais. A política, assim, tornou-se um instrumento de sua ascese como homem. Lutar pela liberdade queria dizer: querer, julgar e agir. Por isso, faziam-no calar e cassavam-lhe os mandatos de parlamentar.

A escravidão está em querer a coisa errada, julgar sem a espada, ou agir sem um ato de presença de Fides. O primeiro é o burro puro e simples (como eu e você); o segundo é o covarde e o terceiro é o mentiroso. Covardes e mentirosos formam a quase totalidade dos ditadores modernos. Porque de uns tempos para cá nós só precisamos nos importar em querer a coisa certa, pois tiraram-nos a ocasião e o dever do juízo e da ação. Então, quem ao menos sabe o que quer, prevalece sobre os demais -- e ascendem ao poder os mentirosos e covardes decididos; abaixo deles, servindo-lhes de claque, os mentirosos, covardes, e omissos. Outros -- quem!? -- começaram a agir e a julgar em nosso nome. É chegada a hora em que outros -- quem!? -- escolherão por nós: o que queremos comer, o que vamos ler, com quem nos casaremos, que filhos teremos, e até quem somos. O sonho do homem moderno é escravizar-se no jardim de Epicuro. Carlos Lacerda tinha por motivo de vida o trecho de Tólstoi, o trecho que ele escolheu para epígrafe de sua coletânea de artigos ‘Cão Negro’: “Seu único temor era morrer sem haver feito ainda nada de bom e belo. E queria tanto viver, viver para realizar um grande ato de sacrifício”. E palavras de Villaça:  »[Lacerda] tinha o sonho das grandes a afrontosas ações ». Quem age, age por amor. Não existe nenhum, nem um só, nem um outro motivo para a ação, a contradição violenta com o mundo, a luta apaixonada contra os moinhos de vento que querem girar no lugar de nossos braços, furtando-nos o suor e a palavra, o trabalho -- o trabalho, que está para os braços do homem como a palavra na boca do Cristo. E Carlos Frederico Lacerda (Carlos de Marx, Frederico de Engels) gostava de citar Santo Agostinho e São Paulo,  »no fogo das paixões violentas, na capacidade prodigiosa de amar a vida’‘ -- assim, com essas palavras, Villaça encerra suas memórias de Lacerda.

Carlos Lacerda, o demolidor de presidentes. Quando calado, era a imagem do homem na solidão diante da balança e da espada; e se porventura falava, ei-la, a imagem, apostólica, do orador popular, o anunciador do novo dia.

Lacerda morreu aos 63 anos, exilado na cidade em que foi Governador, no próprio país em que nasceu, cujo povo ele amou, e quis ser Presidente. Impedido à ação pública, lutava pelas idéias (abriu a editora Nova Fronteira, escreveu vários livros). Mas não era a mesma coisa. Porque a luta é a concentração da vida, no que ela tem de mais verdadeiro e objetivo: a contradição, a dor, e o compromisso. E o debate intelectual, desde que extinguiram-se aqueles oradores, nas ruas e encruzilhadas, à cata da conversão de almas, quando não da peleja contra os inimigos, do Reino e do Papa, passou a não ser mais que um jogo entre dois senhores que fingem respeitar um ao outro sob belas aparências, e indiferentes: ao outro, e à verdade. A guerra é preferível à indiferença -- ainda que seja entre irmãos. Esta frase é de Unamuno, o gênio espanhol, naquele mesmo livro que termina com esse verso:  »E que Deus não me dê paz, mas glória! », motivo dos atos e intenções daqueles que vivem pela espada. Há homens que nascem de sangue, suor e lágrimas, forjados no crisol das agitações ferozes; filhos da terra, justificados pelo combate.  »Viver para realizar um grande ato de sacrifício ». Vida, faena louca de som e fúria.

Ele aclamava com o martelo naquele dia de Maio, corajoso de suas certezas, o discurso em defesa de si mesmo; para nos lembrar aquele antigo adágio: quem não pode defender a si mesmo e o que é seu, não é digno da humanidade. E resumia na tourada seu caráter e sua biografia, o motivo do guerreiro, o assalto da vida, quando o dever chama ao sacrifício; quem é o touro da vez, quem vence o vencedor.

 »O apoderado já deu suas ordens. A corneta soou, estridente, os toques da luta. A tourada vai acabar! É o minuto da verdade. De suas engalanadas butacas vertem-se clamores e olés salerosos salpicam o redondel onde empalidece a claridade do dia. É uma festa de cor, a tourada cívico-patriótica, a fantasmagoria picaresta em que estamos metidos, pálidos de espanto ainda mais que de apreensão. Temo desapontar os aficcionados. E o próprio apoderado não descuide! Se quer ver sangue, desça à arena e enfie no cachaço da besta escura; de um só golpe, um só, não dois nem três, a sua espada rutilante. Se a besta não entrar em agonia, nem com o chuço dos picadores nem com as farpas dos bandarilheiros, venha ao toureiro que, de peito aberto, se oferece para o sacrifício. »

 »Nós somos os que constroem, com sacrifício e com risco, as vitórias definitivas, as únicas que Polifemo não conhecerá. »

Guilherme José Santini, Março de 2011



Conselhos para os dias estéreis

 

Um encontro de Jean Guitton com Auguste Valensin, destacado apologético cristão francês da primeira metade do séc. XX. Entre comentários reproduzidos de Valéry, amigo de ambos, e notas a respeito da experiência pessoal com o ofício da escrita e da arte da retórica do velho jesuíta, Guitton nos fará a vez de cicerone, apresentando o amigo mais pessoalmente, e recolhendo no resultado do que parece ter sido um agradabilíssimo encontro lições práticas aos seus leitores.

Père* Auguste Valensin dirige uma conversação, onde me interroga, como um Sócrates complancente, diante dos amigos universitários.

A conversa obedece a lei de toda conversação, que é de abordar, de passar e de corrigir-se. Lhe faz o papel de abelha, sem se perder dentro do cálice. Finalmente, esse tipo de conversa sem ordem aparenta dar muitos frutos, eu creio o melhor feito para as capacidades do espírito humano. Aquele que quer tudo aprofundar ou tudo sistematizar, encontra rapidamente o veneno. Outrora, havia salientado esta sentença de Fénelon:  »é preciso colher a flor de cada sujeito e não trabalhar senão naquilo que se pode embelezar ». Embelezar? Eu diria antes: aperfeiçoar pela infinitesimalidade de um pensamento, de um adendo pessoal, de uma nuança.

Père V. me faz compreender que há nos meus livros linhas convergentes nas quais não se vê ainda o ponto focal, de onde uma certa indeterminação. Eu lje respondo que o centro existe e que, se o tempo não me deixou envelhecer, ele aparecerá.

É sempre curioso entender esse jesuíta humanista falar de seus métodos. Nós combinamos de escrever juntos um livro sobre ‘o trabalho intelectual’. Mas, com sua mania de excelência, seu horros de datas-limites, eu sei que ele no seu gênio é de nunca ‘chegar a’. Este livro, eu o farei só: suas asas de anjo me impedem de andar. Eu anoto seus conselhos.

Ele apreciou muito os livros de meu amigo Jean Prévost sobre Stendhal e sobre Baudelaire: são, diz ele, artes de viver tanto quanto artes de escrever, ou antes são artes desta ciência superior da vida que utiliza as maneiras do ‘métier’ (aqui o métier de escrever sobre o papel branco) para a unidade interior, quer dizer, à beatitude. Eu conheci Jean Prévost antigamente, sem duvidar que aquele sólido rapaz, tão generoso sob sua violência (como a morte o demonstrou) era aplicado a esse gênero de estudo sobre o ‘métier’, a execução. E tenho também o seu ‘Stendhal’ por um livro-mestre sobre ‘criação’ no estilo ou na vida, sobre os de empregar um ardil consigo, se obter de si mais do que se tem.

 »Stendhal, me diz Père Valensin, me é útil para os meus períodos de inspiração e em meus momentos de jovialidade. Mas o método que me ensinou Valéry é-me muito mais útil em meus momentos de desgosto, de secura e de cinza. Ah! eles se multiplicam com a idade. Ou, se quiserdes: neste estado de aridez que os monges e místicos descreveram tão perfeitamente e do qual Valéry me dizia que ele o era constante consigo. »

E como eu lhe pedi para me definir este método do deserto, ele me disse:

 »Vede: eu começo por qualquer coisa de horroroso, de inverossivelmente banal e lamentável. Eu tenho então por critério deixar correr meu lápis sobre um vasto papel com grandes lacunas e sem jamais me reler. E de não pará-lo, como quando ele cria sapos, monstros, como nos contos de fada. Quando isso termina, então eu procuro o encadeamento. Eu corto, eu recorto, eu retenho o melhor. Eu substituo a madeira pela pedra. É um trabalho de engenheiro e muito divertido, na verdade. É preciso para isto sobretudo o critério e o sentido dos sacrifícios: isto é um dom que não pode ser ensinado. Eu me digo: aqui, falta uma imagem. Então eu construo a imagem com a arte do engenheiro, considerando o efeito a produzir, mas sem nenhuma inspiração. Eu dou relevo a uma planície. Não se acreditaria o prazer que eu experimento nestas transformações. Eu suprimo ainda o esforço e a inspiração para os substituir pelo mecanismo e pelo critério. Mais ansiedade! Eu não digo que obtenho a alegria da juventude, que produz, embora com faltas; mas uma bem-aventurança absoluta e calma, aquela que obtém com certeza e sempre.

Então o Père, que tanto escutou na sua vida de ‘discursos’ fastidiosos ou de ‘sermões’ insípidos, me dá quaisquer conselhos para esta arte tão difícil e tão ignorada (dos professores e dos pregadores) que consiste em ‘falar’: coisa tão simples. O que me guia, é esta definição que Jules Lemaître dava da eloqüência, quando dizia: ser eloqüente, é dizer qualquer coisa a qualquer um.

Valéry, me disse ele, me me explicava jocosamente que, para bem falar, é preciso chegar a ter destreza suficientepara enrolar um cigarro diante do público; que é preciso alcançar um certo estado de aquecimento do cérebro a fim de que as idéias se desprendam livremente em vós sem um preparo imediato e sem que o auditório possa se escandalizar com um equívoco, com um erro cometido no atropelo das palavras. É justamente desse tartamelar possível que as pessoas gostam, e esperam de vós, principalmente em nosso tempo de linguagem mecânica.  »Sem papel, me dizia Valéry, fala-se com precipitação. Com um papel também. E, ademais, entedia-se. » Ele me descrevia a impressão de um  »verdadeiro pânico », que ele tinha sentido algumas vezes, quando o auditório não estava desperto e em harmonia com ele, e que ele escutava o público tossir.

Em suma, tudo reside em uma correspondência entre si e os outros, em um ‘sonho desperto’ dos dois lados, quer dizer em um esquecimento total e de si e dos outros: é um vôo plano, o instante nupcial de dois abandonos. Basta que tenha existido quaisquer minutos para que haja verdadeira ‘eloqüência’, no sentido de Pascal, quer dizer, ‘palavra’. E é porque um assunto de curso ou de conferência deve compreender nos seus desvios  o ato de confidência, o momento de intimidade, não previsto, nem previsível, provocando a união silenciosa das consciências, tornando impossível o gesto, tão vulgar, do aplauso.  »Se tendes liberdade suficiente para me aplaudir, dizia Musonius Rufus, é que eu não vos convenci. »  »Eu tenho um ideal muito difícil, agrega Père Valensin, e quase desumano, concernente à palavra. Isto me torna um péssimo ouvinte de conferências, um insatisfeito se nunca me acontece de poder realizá-lo. »

Ele me fala dos exercícios aos quais ele se consagra cada manhã para conservar inteiramente fresco nele o poder de escrever: ele cunha versos brancos sem procurar o sentido, deixando-se guiar pela assonância… Exercício que ele aconselhava a François, o menino genial.

* A palavra ‘père’, em francês, denomina comumente alguém mais velho, já ancião. Literalmente significa ‘pai’. Como sua tradução para o português é inaplicável, preferimos mantê-la tal qual.

Tradução: José Santini



Aniversário de uma antiga viagem a Jerusalém

Entre os dias da celebração pascoal, da paixão, morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, voltamos com a tradução de 6 páginas do diário de Jean Guitton: suas anotações, durante uma viagem à Terra Santa, pouco após a criação do Estado de Israel. O crepúsculo de vapor amadeirado, os hábitos imutáveis do povo, uma visão noturna por sobre a cidade santa a partir do monte das Oliveiras; a temperatura da terra, a mesma, bem como mesmo o povo, as mesmas ruas, a multidão acossada entre Oriente e Ocidente nas mesmas ruas estreitas da cidade onde pregou, curava e gostava de ficar Jesus. O olhar de um ocidental cristão, francês provinciano e filósofo universal, pelo lugar o mesmo sob cujo olhar lamentou Jesus  a sua sorte já anunciada com igual lamento pelos santos profetas: Yerushalaim.

Aniversário de Uma Antiga Viagem a Jerusalém

por Jean Guitton

Jerusalém, Janeiro-Março de 1953

De madrugada, aurora descorada; depois, sobre o fundo do horizonte, à volta de Jerusalém, nuvens marrons, fosforescentes da luz que elas tomam emprestado. Plaino admirável, terra vermelha, fria e espessa, própria à cultura de laranjeiras, essa pequena árvore dos frutos de ouro. Por toda a parte casas próprias e novas. Em Lydda nós deixamos o trem. Iremos à Jerusalém por uma estrada alcatroada própria à velocidade. Essa estrada está costeada de tubos, ou antes, de fragmentos de grossos canos colocados ponta-a-ponta. Enfim se vai agora resolver o problema de adução de água em Jerusalém! Eu esquecia de dizer que o sol se levantou, que ele ocupa o céu, luzente e chamejante como no Egito, mas num ar seco, limpo e mais frio. Diz-se-nos que chovia há dois dias, e que é um tempo excepcional.

A estrada sobe sobre os primeiros contrafortes. Eu torno a achar esta terra pedregosa, freqüentemente recidiva em França, notadamente pelas terras de Garrigues e de Millevanches. As pedras encobrem a terra.

Jerusalém, Jerusalém! Aqui seria preciso uma primeira reflexão sobre ‘o lugar’.

- O que é um lugar? Um ponto no espaço onde se passou no tempo o evento.

- O lugar não guarda nada do evento. Cabe ao espírito substituí-lo. É porque a história não vive senão no pensamento, e é o pensamento que faz o lugar.

- O pensamento não cria nem o evento, nem a localização; mas logo que ele crê no primeiro e que obtém a segunda, então ele une o presente ao passado no lugar.

- O lugar geográfico não guarda nada; o lugar onde se passou qualquer coisa assemelha-se a todos os lugares que não foram visitados pela história; talvez ele valha melhor ainda quando nenhum vestígio subsiste, o vestígio estimulando uma dúvida e exigindo luta e discussão. Mas há coisas que o tempo não pode abolir e sobre o que os homens não têm poder: o ‘céu’, e ‘a terra’. É o mesmo firmamento, o mesmo rochedo, o mesmo solo.

- Duas raças são temerosas: aqueles que destroem por ódio e aqueles que constroem por amor.

Sim, os lugares são como os outros e tudo ao redor é como em toda parte: as imundícies, a erva verdejante, os insípidos odores, os moleques que jogam, as mulheres nas suas lides de casa, os negociantes, o galo que canta, os rumores da cidade, um ferreiro que bate, um carro que geme, um céu baixo, alaridos, barulhos confusos, a cidade que respira e a maior parte que se contenta só de viver. Então se compreende melhor a encarnação e a simples natureza humana. É o ordinário de nossas vidas que amanhã será mais belo, pois se terá lançado novamente no livro da infância a Jerusalém imaginária. E apesar disto é essa Jerusalém que nos amadureceu, no momento das Cruzadas. A terra santa aprende que toda a terra é santa! Uma vez que toda terra se lhe assemelha.

Para compreender o Santo Sepulcro, é preciso, eu creio, estas três precauções:

- Saber que o Cristo foi crucificado à porta de uma pequena cidade como aquelas da Idade Média sobre uma eminência de todo pequena, sobre um rochedo que tinha a forma de um crânio. E, todos esses lugares tendo sido finalmente nivelados e polidos por diversas operações de arquitetura e de piedade, não resta mais nada que se possa ver e tocar.

- Convém-se pois imaginar um fragmento de diamante cravado pelo ourives no ouro e no metal, mas que teria de tal forma sofrido de suas atenções que ele se tornara uma pura poeira, apenas existente, e que não se poderia mais tomar-se como tal senão pela aplicação da fé.

- As diversas confissões cristãs dividiram essa instituição (já dividida entre inúmeros lugares e recordações). Aquela que mais obteve é aquela cuja proteção usufruía de mais força, quer dizer: balas de canhão e baionetas. Os Gregos têm a parte real e os Latinos são os irmãos deserdados: eles não têm portanto a posse das pedras, mas têm a vida e o espírito; assim como em certas partilhas familiares.

Tão depressa chegamos, fomos ao Santo Sepulcro. Dédalo. Jamais se vira ruas de tal modo atafulhadas: burros, beduínos, árabes, cheiros insossos e que causam náuseas. Eis aqui a entrada do Sepulcro e imediatamente depois de ter subido vinte degraus escarpados, uma cripta dividida em duas partes: à direita o altar dos Latinos, à esquerda o dos Gregos, que está no lugar da crucificação. Nenhum lugar sobre a terra é mais augusto. No entanto não há ninguém aqui, salvo um monge grego sujo e o ar distraído, que vigia seus direitos. Aqueles que possuem este local não estão mais na comunhão de Roma. E todavia o lugar fala e reza em nome desse abandono assim mesmo. Os santos estão mais honrados que o Santo dos santos. E convinha que fosse isto, porque o maior luxo, é ainda obscuridade para Aquele que veio trazer a união. Jesus novamente isolado e em um mundo indiferente. Quanta profusão em São Pedro de Roma e aqui quanta nudez! Jerusalém ajuda a compreender Roma e a colocá-la em seu verdadeiro lugar, que é, apesar de tudo, o segundo.

E nós aqui agora diante o Sepulcro. Inclina-se para passar pela brecha que permite encontrar a gruta. Uma tábula de mármore recobre a verdadeira pedra do Sepulcro. Um homem a beija, e se prosterna. O túmulo está vazio, como o foi para as Mulheres. É de todo uma pequena sepultura. Muito menos de orações, de piedade, de solicitude e de milagres que em Lourdes. Um museu de arte sacra, e que pertenceria aos frades inimigos. Monges gregos salmodiam em tom rouco. Uma pobre mulher entrou.

É em ‘toda a terra’ e não somente ‘esta’ terra que foi o túmulo de Cristo. Em Jerusalém, aqui, eu não vejo senão um ponto, que verdadeiramente é centro; mas, o outro ramo do compasso passa por todos os lugares que outrora apreciei.

O oriental vive exteriormente e muito simplesmente. Sua vida seria de uma austeridade excessiva, se não houvesse a indolência em sua natureza íntima. Nada de provisões. Não lhe parece necessário procurar possuir mais do que ele não possui; desta tendência que tem o ocidental de melhorar sua sorte e de conservar para o amanhã, ele faria certamente um vício. Não se lhe fixa ao menos nenhum caractere virtuoso. É uma perturbação inútil e uma aplicação grande demais; o retorno à vida simples e primitiva que Bergson prega, ele é realizado pelo oriental.

Cada um se instala em seu lugar sem se preocupar com o vizinho; se empurra-se, se acotovela-se, vive-se verdadeiramente em uma ‘comunidade’; e é isto que penso, isso que Renan queria nos fazer entender, quando ele assinalava o ‘comunismo’ dos primeiros Galileus ao redor de Jesus. Eu chamaria antes este traço de ‘familiaridade’. Essas barreiras que são os muros, os apartamentos, as calçadas nas ruas, as cercas através dos campos, os fios de arames farpados, eu não os vejo. As pessoas estando pobres têm suas coisas sob os olhos e elas as vigiam. Elas não são próprias, porque a propriedade exige que se tenha muita disciplina, que hajam separações. Ela também exige água, que é um bem raro. Perto da porta de Damasco eis aqui os beduínos que se amontoam em um canto, de crianças que jogam qualquer coisa como entre nós a amarelinha, um ancião que tenta fazer avançar seu burro, médio-burgueses que sorvem o narguilé com ares de pessoas concentrada, duas mulheres enveladas passando com fardos em cúpula sobre o alto da cabeça e sem dar a aparência de esforço. As lojas são tão estreitas, tão abertas sobre a rua que se mergulha em seu interior e que se vê tudo o que lá se passa. Eu friso a pobreza dos estoques. Uma civilização deste gênero não é favorável ao enriquecimento. Mas ela pode ter um belo visagem espiritual, se as almas são justas.

É preciso pois se representar Jesus sempre ‘rodeado’ e ‘acossado’ por familiares e curiosos, não havendo verdadeiramente um lugar nem um momento para viver uma vida solitária, enfim nas condições as menos próprias a isto que nós chamamos a vida interior. Me parece que se vê isto nos Evangelhos. Ainda, em são Marcos 1:35:  »enquanto estava ainda escuro, Ele se levantou, Ele saiu para ir em um lugar que fosse deserto, onde Ele orou. Simão e aqueles que estavam com Ele se olharam à sua procura e eles Lhe disseram: todos Te procuram. » Eu repito que isto me parece ver que Jesus queria estar só, escolhendo a hora antes da aurora, quando o sono de seus companheiros é mais pesado, e escapando para longe a fim de rezar, provavalmente em voz alta. Este texto foi bem transformado por são Lucas que como que aproveitou-lhe bem a cor. Primeiro que para são Lucas, é o dia e não  »antes da aurora »; não há mais oração; depois aqueles são ‘as multidões’ que o procuram; ‘as multidões’, isto é muito vasto! Na apóstrofe de Simão havia:  »todos Te procuram », o que quer dizer não somente  »cada um Te procura, mas nosso grupo Te quer consigo » (Marcos 1:35; Lucas 4:42). Assim também, em Marcos 1:33, essa cidade amontoada, reunida à porta, após o deitar do sol…

Essa vida familiar do Salvador indica como os Apóstolos estavam na condição do testemunho. Eles ‘viam’ com os dedos, com o corpo, com as costas, com os membros; eles ‘tocavam’ com os olhos. Uma tal vida pública era inconveniente e insustentável para uma natureza também delicada qye aquela de Jesus, e eu creio que ele não a prolongou além dos tempos necessários. mas ele quis que sua humanidade fosse imersa em uma humanidade sem brilho, se encarnando uma vez em um corpo tão puro, e uma segunda vez, por assim dizer, na familiaridade humana, que nos foi tão pesada em cativeiro!

Todo assim sendo rústico e laborioso, a esses homens não devia faltar algo de nobre, a nobreza
do rei despossado ou do indigente cavalheiro. Pois, aqui, mesmo aquele que não tem mais nada que seu farrapo o veste com uma vestimenta real. As vestes brancas das quais nós não gostaríamos de fazer trapos tornam-se túnicas e adereços. O Oriental sabe fazê-los cair bem, deixá-los desenhar suas pregas naturais. Ele dissimula suas formas sob essas manadas que não têm beleza, e ele encontra sua elegância, com qualquer coisa de altivo e de provocante. Sente-se essa garantia da igualdade moralm essa verdadeira democracia do Oriente. Nossa democracia é fundada sobre ‘princípios’ e ‘revoluções’; ela tem qualquer coisa de inquieta, pois a liberdade de uns parece sempre tocar sobre a dos outros: dir-se-ia igualmente de nossa riqueza, e é por isto que nós nos vigiamos. Mas, aqui, a igualdade está no instinto da raça.

Entre nós, não temos mais que uma imitação. Eu vejo um falso respeito entre nossos camponeses e um resto de servidão que parece impossível nestes povos de reis. O pobre não é indigente e o rico, se se coloca à parte o seu poder, não pode se permitir muito mais que o pobre nessas necessidades essenciais. Os pequenos são a massa: não se vê aquilo que chamamos a burguesia, a administração, o governo. Fora disto, a impressão é aquela da desordem, da imundície, da incúria. Mas se se põe a pensar que esta não é uma vida má para o homem simplesmente homem. A Encarnação se opera portanto em um país pobre e humano, eu quero dizer, em um solo onde a planta humana desenvolvia com esta árida dignidade que ela possui em sua natureza.

Por exemplo, nesta civilização de Senhores despossados, que pequeno é o lugar dado à mulher! Eu sei que nós não temos em Jerusalém uma verdadeira imagem do passado judeu. Os Islam passou com sua afetação de virtude e sua sensualidade uma ao efeito da outra. Me contavam no Cairo que um soldado inglês fora apedrejado, porque tinham-no visto abraçando sua noiva na rua. Um filho do Oriente não poderia se acompanhar de sua mãe. Mulheres enveladas e altas, crê-se que vós tendes segredos: nas não sois senão crianças, não sois inteiramente desenvolvidas. O mestre é Senhor; o marido tem o direito do macho: ele é proprietário. As mulheres restam enfermas e confinadas. Tendo crianças perfeitas elas estão murchas. Elas se assemelham. Foi-me dito que elas gritam entre si, que elas proferem conversas intermináveis sobre filigranas.

 »As crianças ». Eu não vejo escola bem organizada, salvo para a aprendizagem dos elementos sob a férula e pela pura repetição. Mas eu vejo um sistema talvez melhor para estes tempos simples: a criança está com os homens, ela é associada perfeitamente à vida em comum e sua formação consiste em se deixar penetrar e se embeber por esse ambiente que guarda as tradições.

 »A tradição ». Nós estamos realmente no país onde este conceito nasceu. O costume captou o que se fez, e o passado toma valor do futuro, pois  »o que foi será ». O progresso não pode ser portanto senão uma corrupção. E quando há progressos necessários, é preciso então que uma classe de homens faça penetrar forçosamente na tradição aquilo que nela não estava enquanto resultado da sabedoria ou desta subtil palavra que se nomeia ‘comentário’. E se há duas tradições rivais, funde-se-as nesse conjunto sagrado que é o ‘livro’.

Ter inventado o livro e o comentário para suster a tradição, é o golpe de gênio, dado que o comentário sem a tradição não seria mais que uma vegetação privada de seiva e verdadeiramente ímpia, e a tradição sem o comentário acabaria e tornar-se-ia tão difícil de se a respeitar que destituiria a veneração. A tradição responde aos  »mos majorum »; o comentário é o  »opus hominum ». Deste  »mos » e deste  »opus », desse  »fas » e desse  »jus », faz-se a obra divina, o livro, a Bíblia, o Testamento, a aliança.

Revolução em proporções imensas e sem medidas que de fornecer, a este povo, uma tradição nova, uma inovação! Para os povos da Grécia e de Roma, ninguém veio transformar o  »mos majorum ». Quando a fé acabou, ele desapareceu: é a ausência de fé no costume que levou ao fim de seu reino, de sorte que se poderia dizer que o costume morreu carente de seiva. Mas aqui, nos tempos de Jesus, a ‘lei’ era mais forte, ela reinava ainda nos corações. Reportava-se a Moisés como ao árbitro.  »Ele fora dito aos antigos ». O simples trabalhador de Nazaré mudou tudo aquilo com um poderio inacreditável; ele não fazia nenhum esforço; ele portava os decretos, como nós imaginamos que Deus os porta. Se o eco de suas palavras pronunciadas no fundo da província, se esse eco chegou a Jerusalém (e como não o teria chegado, neste país onde tudo é público, onde tudo circula e se sabe?), os homens do Templo certamente começaram a pressentir uma inexpiável culpa. Eles não poderiam compreender de quê se tratava, precisamente porque eles não poderiam imaginar que a ordem antiga fosse ‘antiga’, e que pudesse ser abolida. Mas eles tiveram o sentimento de qualquer coisa que era preciso abater…

Paremos um pouco sobre o monte das Oliveiras para olhar o sol que dorme sobre a cidade. jerusalém se oferece ao sol dormindo com delícias. Ela sabe bem que a orna melhor que a qualquer outra hora do dia. O dia faz esclarecer que ela é pequena e pobre. Mas esses raios oblíquos e que ardem de um ponto fixo podem glorificá-la. O sol que se abisma dentro do vale dos Bné-Hinnom compõe-lhe bem essa luminosidade morrente e doce, da qual ele tem necessidade. Ele lança a paz de uma tinta uniforme sobre os lugares da disputa. O crepúsculo não é tão súbito como no Egito, mas ele apresenta também esse fenômeno de fosforescência que surpreendera Loti, logo que viu, sob o céu da lua, as pirâmides  »rosas ». É que a terra guarda a claridade e uma fria luz que parece vir do sol, tão doce que o eclipsa, mas que acaricia o olhar e que o guia ainda…

Logo o sol é coberto, o céu que é de um amarelo ácido deste lado, conserva ao Oriente todas as sortes de tintas vaporosas sem vapor, profundas e precisas. É porque a melhor comparação seria aquela de uma pedra preciosa; vi no museu de Santa Ana as pedras do peitoral do grande-padre, a sardônica, o topázio, a esmeralda, a safira, a opala, o crisólito: são os cristais abertos aos raios mas que os transmudam em rosa opaco, em grená, em um violeta pálido, em um azul de gorja de pássaro. Estas colorações, eu as encontro nessa vasta colcha celeste onde todas as nuances do arco se fundem.

Civilização pastoril imudada e imutável. É o privilégio do Oriente de nos oferecer espetáculos que nos remetem às origens. As ovelhas frequentemente citadas no Evangelho reportam-se ao bom povo oriental, ao povo que se encerra sobre ele mesmo, que bale e que segue seus pastores, que não têm iniciativa própria, que não tem malícia, que vai onde se o leva, que espera quando é preciso esperar, que é bom e dócil.

O mendigo às postas da cidade. Os pequenos burros por todo lado. As contestações, as deblaterações, os pães redondos em forma de bolachas. Os cegos que caminham se inclinando para trás.

A noite caiu. Ela é superpovoada de estrelas, tanto e tão bem que o olhar é ofuscado por essa multidão. As estrelas parecem muito mais próximas que em nosso país. Sua hesitação, sua vibração não têm fim: elas são vivas como os seres que ficaram surpresos e cativos sob esse manto umbrífero. Surpreende-se que elas não se mudam, que elas não nos falam por figuras volúveis. Os magos as observavam e viram nelas uma que trepidava: é justo dizer que as há demasiado ao nível do horizonte, vegetação aberta nos confins da terra. E a lua é um cálice branco voltado em direção ao alto, como se estivesse prestes a recolher alguma coisa.

Oh! como as noites são doces e plenas de vozes que se calam! A claridade que vem dessas estrelas, a ciência nos ensina que ela não é contemporânea. No céu que se exibe como um idioma incógnito, inumerável e sem chave, há talvez estrelas que são distantes da terra há mais de 1900 anos-luz, e das quais a claridade (aquela que eu recebo) foi lançada no éter no momento da Paixão. O céu é pleno de história.

É preciso considerar Jerusalém como um relicário insígne, -- não todavia um relicário de coisas móveis (‘res’) mas de lugares imutáveis (‘loca’). Aqui, venho ver os lugares. Estes lugares para sempre veneráveis, dado que estamos em um ponto central do espaço-tempo, não podem ser conservados e preservados senão através de santuários. Mas como os santuários, nesta terra predestinada aos ódios, são um dia destruídos e varridos, o santuário novo é construído sobre as reuínas do antigo. É provável que todos aqueles que nós vemos agora serão ainda pulverizados por canhões ou bombas. Mas não se pode apagar mais um lugar que uma lembrança. Outros templos renascerão sobre as reuínas do Templo.

Jerusalém tem dentro uma pupila: é a originalidade desta cidade: ela condensa uma história sem preço em um espaço que não tem um quilômetro quadrado. Concebe-se que a cada edifício seja dado o luxo de estender um olhar curioso e pacífico sobre todos os outros e de estendê-lo ao redor do horizonte. Cada uma dessas vistas sobre Jerusalém é única, e a cidade vista assim a dez pés tem um traço original. Estas ruas que são ruelas de sombra onde as pessoas têm o ar de formigas, de fardos, esses domos que relembram os montículos feitos pelas topeiras e que indicam os trabalhos subterrâneos, os terraços das casas, os palácios, as Igrejas, tudo isso tão apertado, tão condensado, tão acossado um dentro do outro que se acreditaria num empacotamento dentro de um barco, no fundo do cais, para uma misteriosa viagem. As lembranças do Cristo se tocam: o pretório, o cenáculo, a casa de Ana, de Caifás, o Gólgota. Compreende-se melhor então como é preciso figurar as idas e vindas da Paixão, que são zigue-zagues em um pequeníssimo perímetro. Vê-se como não deveriam ser esses palácios, esse pandemônio, esses tumultos. Vê-se, pressente-se que era a região que Jesus amava e onde ele repousava, esta colina que começa nas Oliveiras, que acaba e se arrefece em Betânia. Esta colina das Oliveiras é a colina de qualquer maneira estratégica e o ponto onde se uniriam estas três paisagens que seriam como três dimensões da obra de Jesus; a Leste, o mundo, o universo; a Oeste, a cidade, a metrópole, a história; em suma, a Leste, o porvir; a Oeste, o passado; e, no ponto mais elevado, (aquele em que Jesus chorou para  » se elevar »), o céu.

‘Visita ao Templo’. Tornado mesquita, o Templo é uma jóia de proporção gigantesca. A cor dominante é o azul esverdeado com esse matiz particular à faiança. A obra parece, em dimensões consideráveis, um trabalho de marceneiro, de cinzelador, uma jóia feita de uma multitude de jóias, tudo isso um pouco complicado e precioso, de uma arte absolutamente acabada, e que lança à luz a habilidade do artesão muito mais que uma idéia religiosa, como na São Pedro. Não é impressionante senão que a beleza e a preciosidade se reencontram até nos detalhes e os detalhes nos detalhes. Os vitrais em particular se assemelham mais ao mosaico que à pintura: pedra preciosa transparente, mais que o vitral, incapaz de suportar um desenho e convindo a essa religião sem figuras. Os únicos objetos que se permitem copiar ou imitar são os pâmpanos da vinha, as folhas estilizadas, e também essa escrita árabe que é ela mesma uma decoração sutil com espirais, ligações rápidas e sempre complexas.

Esta cúpula tão admiravelmente feita de proporção e de tinta recobre um grande rochedo informe, que é o topo da montanha e o alto-lugar sagrado por sua vez para os Judeus, os Muçulmanos e os Cristãos: é destarte o eixo do monoteísmo. Aí Salomão construiu um templo imitado do Egito, onde contudo tudo era pagão salvo a ausência de divindade. O verdadeiro Deus aí aparecia pelo vazio. Mas de parte o vazio, era o matadouro sagrado. Os sacerdotes com uma grande faca, os balidos, os mugidos, e absolutamente nada do que aparece em nossas histórias santas…

Tradução: José Santini



Um excerto literário do Diário de Mircea Eliade

É raro Mircea Eliade se deixar anotar senão  »elementos do tempo concreto » em seu Diário. Mas em um desses passeios que fazia pela cidade de Paris nos anos de logo após a guerra, sem dinheiro, emprego, fama, ele se permitiu, ao chegar em casa talvez, salvar a imagem que o remetera aos felizes tempos de sua juventude. Este é um dos raros excertos literários do Diário de Mircea Eliade - no sentido de que não é costumeiro que ele faça descrições de paisagens em referência às suas emoções:

 »Esta noite sobre as margens do Sena, entre o Châtelet e o Louvre, eu me detinha diante de cada batel no cais e -- estimulado por um vaso de flores, uma caçarola sobre o fogo, uma chaminé que se evadia ainda preguiçosamente -- eu revivia momentos isolados de minha adolescência e de minha juventude. Reviver, é quase dizer: que eu provocava, eu nutria esses momentos isolados no tempo mas ligados pelo mesmo ‘sujeito’: o rio, o barco. Eu me lembro de uma viagem sobre o Danúbio, entre Braïla e Tulcea, por volta de 1921, com alguns escoteiros de amigos. Já se fazia tarde e eu não deixava de olhar as vagas, invadido por uma alegria secreta, impossível a se comunicar -- pois, sob o fascínio dos primeiros livros que eu lera sobre a Mesopotâmia, eu me via remontando o Eufrates…Em seguida, quase sem intervalo, eu passei às minhas primeiras viagens sobre o Gângis, perto de Calcutá. Eu via de novo, com uma precisão alucinante -- como eu o vejo desde 1932 -- a ponte sobre o Hoogli, à frente da estação de Calcutá. Novamente, a viagem sobre o Neckar e o Reno, em 1937, de Heildelberg a Colônia na qual eu me fiz ‘salvar’ a recordação, anotando no momento mesmo, em um pequeno caderno, todas as sortes de pequenos detalhes, e tudo o que se me passava pela cabeça, em ligação a esses detalhes. »

Mircea Eliade, 25 de Julho de 1946



Minha Feição de Espírito

Apresentação:

Novamente uma página do Journal de Jean Guitton. No melhor auto-estudo feito sobre si, ele cita um trecho de uma carta de Joubert, esse escritor tão amado por ele -- tendo aliás visitado seu túmulo no cemitério Montmartre -, e que jamais escreveu para o público, senão para amigos particulares; o conto íntimo de Joubert, quem que o lendo não se fará recordar em vários pontos do Testamento de Heiligenstadt, de Beethoven? E tendo citado a carta de Joubert, Guitton prova do seu comportamento, sempre o de um estudante, que se reporta a um mestre até quando quer descrever aquilo do qual ele somente ele próprio pode dar o testemunho. A solicitude consigo e a tranquilidade que emana de suas palavras ao anotar suas limitações nos acalma igualmente: os grandes escritores, os artistas, filósofos, eles foram todos como cada um de nós.

José Santini

 

Minha Feição de Espírito

por Jean Guitton

Fiz esta manhã um mergulho em minha natureza; não digo um ‘exame de consciência’. Isto consiste em fixar-se nos deveres que se tem e a se medir invocando-os. Não é nada disto. Utilizei esta manhã de um conhecimento sem alvo, à la Montaigne, esse conhecimento de si, que não se pode ter na juventude: é o conhecimento vesperal, aquele desse meio-termo da vida onde se sabe enfim a matéria da qual seé feito. Eu encontrei socorro nesta análise que Joubert fazia dele mesmo e onde me descobria em mais de um traço:

 »Há, segundo eu, em todo homem, duas coisas que é preciso distinguir cuidadosamente: sua organização e sua constituição.

Supondo o homem enquanto ser autômato, chamarei organização os motores da máquina, e constituição sua matéria.

Ora, meus motores são excelentes,na minha opinião; mas a madeira da qual eu sou construído é frágil, mode, delicada. Ela prejudica com frequência o jogo da máquina; freqüentemente mesmo ela torna impossíveis os movimentos onde a máquina é mais desenvolta e aos quais ela é mais apropriada.

Aqui que serve ao pensamento abunda em mim, mas aquilo que serve à vida é em pequena quantidade. Vós me dizíeis, no belo centro do Palais-Royal, a última vez que nos vimos, que eu me afeiçoava demasiado a tudo aquilo que eu fazia; sim, e demasiado a tudo aquilo com que me ocupo. Daí nascem eu não sei quais perdas, que não podem ser restauradassenão pelo interromper súbito da operação que me cansou; daí, como vós o sentis, uma grande irregularidade e descontinuidades freqüentes em minhas comunicações intelectuais. Que se eu quero forçar minha natureza, produzo aparências sem realidade; escrevo ou falo sem nada dizer; minha pena e minha língua se movem, mas meu pensamento e meu sentimento não se expressam; não faço senão vãos esforços, muito mais próprios a descontenter aqueles que me lêem ou me escutam, que o seria minha inação ou meu silêncio.

Eis, desde que eu nasci, a causa e a única origem das desigualdades que sempre tive em minhas relações. Julgam-me preguiçoso; eu vos juro em toda verdade que não o sou absolutamente; não sou variável não mais; eu sou, ao contrário, imutável; mas meu sangue e minha carne são caprichosos em compensação. Nada os pode domar senão um grande motivo que vem do coração. Se, por exemplo, eu me julgo evidentemente necessário, logo meu princípio de animação se põe em obra, com uma força, uma igualdade que têm me impressionado constantemente. Um esgotamento absoluto me força só a delas me subtrair, pois esta faculdade vivem sempre em mim por intermédio da parte de suas raízes concercentes à vontade.

 Me parece certo, de um outro aspecto, que tenho naturalmente a alma e a fibra tão facilmente bem providas quanto a harmonia humana o permite, e que, assim que elas experimentam qualquer irritação, eu saio do diapasão. Tudo aquilo que traz consigo à minha razão mais do que nela o há de ordinário a perturba e cria obstáculos às suas funções; tudo aquilo que traz ao meu coração mais ardor produz-lhe a mesma confusão.

Vede porque, quanto ao primeiro ponto, uma longa ou muito ávida aplicação me torna estéril, e porque quanto ao segundo, convinha-me poucas afeições, poucos amigos. Minha mente e minha sensibilidade teriam necessidade, para se exercer com sucesso, de um movimento que dissipasse aquilo que nelas se procura, mas que nada causa.

O prazer intelectual que me é tão necessário para operar, isto que eu me acuso como uma espécie de vida espiritual, é talvez entretanto para mim um recurso indispensável… O que me o demonstra, é que as idéias graves me vêm em abundância, quando eu recreio, e se interrompem assim que elas me têm muito tenso. »

Eu pertencço a esta linhagem. Tenho o espírito flexível à superfície mas assaz imóvel nas profundezas. Esta divisão, natural ao meu ser, me faz viver como em 2 andares. E sem dúvida muitos espíritos vivem desta maneira divididos e univdos, pois somos em 2 naturezas (talvez à imagem do Deus-homem, modelo secreto inefável?). Eu penso que se aprenderia sobre o homem, se se partisse desta hipótese de dois níveis de existência. Em todos os casos, eu quero dizer como eu a sinto, esta disjunção constante sobre si, e mais como eu como eu a sofro em mim: ela é em efeito incessantemente um elemento depaciência e de trabalho ligado à experiência da vida humana. A superfície é atribulável,  »le moindre vent qui d’aventure »… me faz curvar, e algumas vezes estremecer. Este vento é freqüentemente o sopro vindo de um temor imaginário, porque não tenho a imaginação jovial. Este dito de ‘melancólico’ que adoro pronunciar, conviria para a descrever. E, em um sujeito qualquer, aquilo que se apresenta de primeiro ao meu espírito -- brilhantes, barulhentos, sedutores, bem talhados, afinados e reunidos que não o são nas obras de meus adversários, -- são estas as razões de duvidas disso a que eu me uno em minhas profundezas. Meu defeito seria de atribuir às objeções muita importância, de muito conceder. Eu vigio por tudo isso. O fato de ler, de captar pelos sentidos, de escutar um outro espírito que fala, isto faça o ser o mais caro, me faz ávido. Eu não poderia fazer nada pela metade e em estado de sonolência ou por um automatismo gentil, como tantos outros de meus semelhantes tão de boa vontade o fazem, em seus ofícios. A menor atenção a um ser que está ao meu lado, que eu amo, ou a uma idéia suscita em mim um feixe de idéias, de sentimentos, de possibilidades, de medos, de cálculos, de previsões, de harmonias. O feixe recai em lassidão. Ah!, se eu pudesse o ficar, este feixe, no mesmo instante! Mas todas as formas de expressão (escrita, ditada, a linguagem mesma) me são demasiado lentas. Essas pessoas que classificam os caracteres diriam que eu sou um ‘emotivo, não-ativo’, como me dizia-o Gaston Berger quando ele tinha tempo outrora de se debruçar sobre meu carácter. Mas jamais acreditei nessas definições de carácter. Levelle me contava que ele havia dito a La Senne, seu amigo classificador:  »os caracteres, eu os tenho todos ». Em todo o caso, se eu sou emotivo demais, isto não me impede de permanecer assaz impassível, bastante inalterável na natureza íntima às influências dos outros às quais eu me submeto todavia sem divifuldade. Minha mãe, a quem eu pareço neste aspecto, me citava essa divisa que M. Ruhlières tinha dado outrora a Mme. de Beaumont: um Carvalho. E, sob esse carvalho,  »Um nada me comove e nada me abala ». Eu me perguntei constantemente como se combinavam na minha pobre natureza o sensível e o insensível me observando nas agitações de minha vida, me vento saltar de uma maneira flexível e improvável, melhor que muitos amigos reputados fortes e que eram muito mais corajogos que eu. Pois eu devo dizer que jamais senti em mim qualidades excepcionais nem em inteligência, nem em força. E que sempre admirei vários amigos muito prezados por sua preeminência em espírito, em vigor ou em simples coragem. Eu me sinto fraco e sem talento. Eu adoro admirar, ter modelos, me encontrar junto de mestres. Eu tenho feito esforços para residir perto de um gênio, para ser o Joinville ou o Eckermann de algum homem incomparável. É o que d’antanho, há vinte e cinco anos, me interessou muito no general Weygand, que tinha esse mesmo gênero de vocação. É junto de mim uma necessidade ter um ser a admirar, mais ainda que a amar. E experimento em mim a verdade desse pensamento de Descartes que a admiração é a primeira das paixões e que ela passa antes mesmo do amor. Isso me levou algumas vezes a admirar demasiadamente rápido.

Para que eu descubra, é preciso que eu seja ensinado. Até o fim eu me inventarei, se o for preciso, mestres. Irei até as extremidades da terra obter um oráculo. Ou ainda tomarei notas para aprender escutando um de meus estudantes. Me parece que um pequeno menino, se eu sabia interrogá-lo sem o assustar, como São Francisco falava às andorinhas, me ensinou muitas coisas. O contínuo me fadiga muito rápido. Eu sou obrigado a me divertir. Amo ao extremo as digressões. E é porque o ‘Journal’, que digressa, me convém bastante. Isso me impõe a combinar um plano… para lhe ser fiel. Assim que eu decido a escolher um itinerário, eu sei que eu me deviarei. E esta idéia de desobediência possível me apraz. Os choques, os azares, as margens, as tangentes me são indispensáveis. Eu espero em silêncio que o fecho da porta se abra e que deslize a visita angélica. Eu olho com avidez de faco ao imprevisto. A ocupação superior à obrigação, gratuita, inopitada, breve, o último dever, a tarefa suplementar é aquela que me dá mais poder e bem-estar. Minhas melhores coisas foram marginais. Feitas por graça, e sem premeditações. Gosto do de repente, do súbito.

Algumas veze eu adoto esse método estranho do suplementar.  »A higiene do espírito, é a fadiga », dizia, disse-me-o Édouard Herriot. O tédio suplementar me liberta dos outros, segundo esta lei que não se tem nunca senão uma angústia ao mesmo tempo. A angústia do momento, a malícia do dia do qual fala o Evangelho, certamente que sim, ela basta.

É uma disposição que eu não posso alterar, um mal hábito de não-conformismo, que eu observo também entre meu pai, sempre tão corajoso não obstante sua grande idade. As classes em tédio onde eu peguei o hábito de pensar em outra coisa, ajudado pelo vago ronronar na sala, me ensinou a não escutar: hábito precioso. Enquanto faço em trabalho, tenho uma tira para recolher o fruto de minhas distrações e de parênteses -- o que é também este diário na minha vida. R. me dizia:  »O plano, o premeditado, é o conveniente, o homem mais ou menos falsificado. A digressão, é o homem que surge, o homem verdadeiro ». Os alunos o sentem. E é porque eu sei que, se eu quero falar em público, é-me preciso obter um estado de distração, e não mais ter em conta dos auditores senão como uma paisagem de almas e destinos. Nesse caso eu comunico verdadeiramente com eles: por essa subtração de seus corpos e de meu corpo. Logo que eu falo assim diante dos outros, há subitamente para mim um arrebatamento breve, quando, por um azar das palavras ou das idéias, sem mérito de minha parte, sem premeditação, eu chego a esse duplo esquecimento dos outros e de mim -- já que eu não tenciono mais respirar nem tossir, e que, olhando o auditório por engano, percebo um grande olhar de ave noturna estando a escutar um desses pensamentos, que me visitam.

Isso, eu não o encontro nunca em uma conversa, nem mesmo em todos os pequenos auditórios. É-lhe preciso uma certa massa, onde cada um se esquece, onde não há senão homens, uma multidão fazendo um só corpo. É isto que torna-me agradável escrever sonhando vagamente com essa multidão.

Ser o desconhecio que chega, que não dá seu nome, que reparte após ter deixado sobre a mesa justamente aquilo de que se tinha necessidade.

Em um velho exemplar de Telêmaco, quando eu tinha doze anos, tinha escrito este resumo da sabedoria segundo Fénelon:  »Não é preciso fazer muitas confidências prematuras não se sabendo em quem se confia. (Que às vezes tenho pecado nesta matéria!) Não se deixar levar à vaidade nas relações. Para formar o encanto da beleza, é preciso uma nobre simplicidade e um pudor amável ».

 »As provas faz-nos resistentes ».

 »A boa vida guarda sempre a juventude ».

 »A imprudência dá experiência ». (Como isto é verdade!)

 »Os prazeres recreativos fazem bem ».

 »A sabedoria é tão melhor na juventude que na velhice ». (Eu o tinha sentido sendo de todo um menino)

 »Conheceros homens ».

 »Encorajar seus semelhantes ».

 »Coragem inabalável diante a morte ». (Que o dirá!)

 »Não desejar demasiado a realeza ».

 »Não é preciso a todo custo abandonar um caro amigo ».

Tudo isto me parecia ainda me convir como conselho, mais ainda isto que eu me repito. E todavia Fénelon não me apetece mais.

 

 

 

Eu também gostaria de me examinar no que confere à alegria. Porque tenho o temperamento melancólico. E contudo meu humor é agradável: e, assim que eu falo com outro ser, eu me sinto em um princípio de alegria. Meu ideal, para escrever como para falar, seria aquele de Nietzsche, quando dizia:  »Que a profundidade e a jovialidade se dão em mim ternamente as mãos ».

Esta mistura de triste e akegre está no profundo de minha destilação do ser. Eu nunca aceitei que estas duas notas de pena e de contentamente estivessem separadas. E mesmo a seriedade mais profunda, eu lhe quero um envolvimento de alegria e mesmo de uma certa negligência ou desleixo. Platão, Montaigne, La Fontaine me dariam o exemplo. De nossos dias, dificilmente encontro estes modelos! Nós temos separado muito os gêneros. A alegria me parece uma bruma transparente, da qual seria preciso poder impingi-la mesmo as coisas dolorosas. No Purgatório, Dante ouviu cantar:

Domine labia mea aperies per modo

tal che diletto e doglia parturie…

É porque eu me sinto sempre de afinidade com esse estado intermediário do Porgatório, onde eu pressinto uma curiosa mistura de pena profunda em uma esperança crescente. Não me apraz o excesso e o ditirambo. Eu adoro esses alogios feitos a partir da sombra, onde a luz é avaliada sob a sombra. Adoraria ser criticado mas com simpatia, ser louvado com restrição.



Os Cadernos de Paul Valéry

Apresentação:

Os Diários de Jean Guitton são marcados, voltamos a dizer, por essa reflexão leve e passageira, como se anotações de um caderno durante uma caminhada, após uma amigável conversação, talvez uma audição de piano solo que fez aclairar os pensamentos e lhe impôr a ordem que carece o filósofo. Jean Guitton o era e fazia-o muito bem -- dir-se-ia mesmo ser sua vocação anotar essas reflexões. Aqui, o crítico de arte, filósofo e poeta Paul Valéry torna-se, junto e através da observação de Guitton, um emérito educador da juventude, por sua riqueza de forma e a robustez de seu critério, expostos ao público. O gênio de Paul Valéry -- ele, um apaixonado pelo método dos artistas (basta recordar que seu primeiro livro foi ‘Introduction à la Méthode de Leonard da Vinci’) -, Jean Guitton o expõe logo a seguir. Vejamos pela apresentação de outro gênio o artista que sempre descartou o que escreveu e pensou, por mais belo e impressionante, que não o tivesse feito ‘avec toute la lucidité’.

Todos os cadernos de Valéry, que provavelmente jamais serão publicados integralmente, se encontram no Centre Pompidou, em Paris.

José Santini

Os Cadernos de Valéry

Durante sua existência, Valéry não cessava de analisar suas operações: o ‘como’ em todas as coisas o apaixonava, não o ‘por que’. E, quando ele fazia versos, eu estou bem certo que ele sempre se desdobrava, fazendo certamente, mas sobretudo ‘se vendo fazer’. Paul Valéry, me diz Monsieur Valensin, deixou duzentas e cinqüenta e quatro cadernos, que se reproduzirá por fotografia. Penetrar no sonho desperto de um espírito criador, decifrar esses nadas dos quais ele soube fazer um todo, esse caos de onde se emerge a ordem subsistente, qual agitação para mim!

Esses cadernos eu os tinha visto. E ele me dizia:  »Vede, em todo poeta (e isto se aplicaria também a um chefe de indústria, a um político, a um realizador em geral) é preciso considerar três seres: o ‘produtor’, -- o ‘homem de critério’, -- o ‘técnico’. O primeiro fornece a matéria. O segundo escolhe. O terceiro fabrica.

Se vós não sois mais que um produtor, como Eugène Sue ou Dumas, vós permaneceis em um plano medíocre. Se vós não tendes quase mais nada além do critério, como Mallarmé ou Joubert, vós vos desesperareis. Se vós não sois senão um hábil artesão, como Thomas Corneille ou Victorien Sardou, vós não entreis no santuário da arte. Valéry, que se conhecia, a ele mesmo, tão bem, sabia que para a técnica ele estava sem rival, que ele tinha o critério o mais apurado. Lhe faltava qualquer coisa na potência. E a cada aurora, ele abria seus cadernos de exercícios:

 »Dans mon âme je m’avance

Tout ailé de confiance:

C’est la première oraison!

A peine sorti des sables,

Je fais des pas admirables

Dans les pas de ma raison.

Essas passagens nós conheceremos um dia: esses balbucios, esses fragmentos, os conselhos que ele se dava, suas exasperações e seus esboços todavia, de sonoridades, de equações sibilinas, de poemas com dificuldade intentados e de logo abandonados, de confidências amargas -, em suma esses germes de si mesmo, fragmentos estranhos vindos do porvir, o caos claro que vos visita em meio ao despertar árido e do qual não se sabe muito o que fazer, mas que para aquele que medita contém promessas: pois ele sente em si a coragem de consigo carregar resíduos, com muito trabalho, a um altíssimo nível de precisão, de esplendor mesmo.

O mais surpreendente desses pensamentos, me diz Monsieur Valensin, é aquele que ele traçou a lápis em seus últimos dias e sobre o qual sua obra de fato se interrompe:

 »Todas as chances de erro -- pior ainda -- todas as chances de mau gosto, de facilidade, vulgaridade, estão com ‘aquele que odeia’. »

Depois, pelo mesmo lápis pálido, inclinado, ligeiramente tremido:

 »A palavra amor não se acha associada ao nome de Deus (aqui, mudança de lápis, e as palavras que vão em seguida estão escritas em azul claro) senão depois do Cristo ».

Monsieur Valensin me afirma ter lido isto no último caderno que lhe mostrava por privilégio Mme. Valéry.

O que não quer dizer, em todo o rigor, eu logo lhe respondi, que Valéry tenha crido em Deus, mas antes que Deus cria em Valéry, uma vez que ele deixava ’la Parque’ cortar o fio de sua vida nesse momento (tão raro) de um pensamento de amor. Na noite desta vida, dizia São João da Cruz, este gênio abstrato, nós seremos julgador sobre o amor. »

Jean Guitton



Ensaio: Camoes e Eminescu

Apresentação:

Infelizmente a quase totalidade dos leitores de Mircea Eliade ignora o seu arguto conhecimento de Literatura. Apaixonado por Papini e Balzac -- sobre o qual intentou escrever um ensaio biográfico -, era igualmente entusiasta de todo o gênero da ‘litterature fantastique’, de quando sempre elogiava Kafka. Durante sua estada em Portugal, onde serviu como adido-cultural do governo Antonescu, interessou-se por Eça de Queiroz, seu segundo escritor preferido de língua portuguesa atrás de Camões, sua paixão declarada. Os Lusíadas, aos 24 anos, lhe inspirou curiosidade o bastante para começar a estudar o idioma português sozinho, ainda na Índia.

 »E, de repente, surgiram na minha memória as imagens dos parques na província portuguesa. Lembro-me da sua melancolia terrível. Mundos há muito mortos que só aguardam o punho vigoroso do bárbaro para se descomporem. »

De Lisboa, guardou a recordação das praças melancólicas como fundos de província, como descreve em seu diário, e da sensação de nostalgia que lhe parecia guardar o povo português. Jamais M. Eliade se esqueceria de Portugal, onde viveu seus últimos dias de contentamento, seguidos logo após da morte de sua primeira esposa, do despertar da Guerra, do comunismo romeno, que o expulsou para sempre de sua amada Romênia; dos anos seguintes no exílio -- triste, pobre e angustiante em Paris.

Nesses felizes anos em Lisboa, manteve relações com a elite cultural portuguesa. Sua paixão por Camões e as civilizações marítimas o levou a pensar em escrever um livro sobre Os Lusíadas, projeto que nunca se confirmou. Neste mesmo interesse, M. Eliade escreveu ‘Eminescu e Camões’, publicado originalmente na revista romena Vremea, traduzido em parte para o jornal português Acção.

É sem dúvida obrigatória a leitura deste ensaio, tanto para os portugueses, como para os povos lusofônicos, bem como salientar as experiências luso-romenas que Eliade compara, neste caso como um crítico literário par excellence: aquele que a si incorpora, avalia e transmite a outrem a experiência dos povos. Por Eliade, vê-se que portugueses e romenos, instados nos opostos geográficos da Europa, estão mais estreitos na civilização ocidental do que se pensa -- talvez mais, entre si, do que qualquer outra relação entre países europeus. Inclusive, uma curiosidade inédita que Eliade nos ensina, para acentuar a irmandade entre ambos os povos: há um correspondente em outro idioma para a nossa ‘Saudade’ -- é o ‘Dor’, no idioma romeno. Assim, a expressão máxima da nostalgia, que Eliade percebera como elemento característico da cosmovisão portuguesa -- e transmitida a nós brasileiros -, unicamente correspondente entre os romenos. Ele explica isso neste breve estudo desses dois grandes expoentes da Latinidade: Camões e Eminescu.

Grato,

José Santini

Camões e Eminescu
Por Mircea Eliade

 »A latina tribo é rainha »

(Vasile Alecsandri)

Quero começar por definir o objetivo deste artigo, que não é um trabalho de história literária comparada, e no qual não me proponho buscar as eventuais influências camonianas que se possam encontrar na obra do grande escritor romano Mihai Eminescu. Aproximando os nomes dos dois maiores poetas da latinidade, penso antes de mais nada na contribuição positiva que cada um deles trouxe ao enriquecimento do ‘gênio latino’.

Por vezes é bastante difícil falar do ‘gênio latino’.

Na verdade, como todas as expressões similares, esta é também bastante aproximativa, dada a amplidão das realidades que é preciso condensar numa fórmula sintética.

É difícil definir o conceito de raça, mas ninguém duvida da existência dum gênio nórdico, eslavo, oriental, expressão de cadauma destas raças e culturas.

A denominação de ‘gênio latino’ foi considerada excessivamente vaga, por se referir a reslidades bastante heterogêneas: Virgílio e Rabelais, o direito romano e a poesia medieval, Racine e Leopardi, S. João da Cruz e Voltaire, etc.

A minha opinião é que, pelo contrário, a expressão ‘gênio latino’ -- pelo menos no sentido que costumamos atribuir-lhe -- é demasiado rígida, porque não reflete suficientemente as realidades. Quando se fala em ‘gênio latino’ ou em espiritualidade latina, pensamos logo em Virgílio, Petrarca ou Racine. Imaginemos este ‘gênio latino’ como um reservatório inesgotável de valores espirituais claros, equilibrados, lógicos, eurítmicos. A multiplicidade de recursos criativos latinos reduz-se, desta forma, aum pequeno número de qualificativos: claridade, proporção, graciosidade, simplicidade, espontaneidade, etc.

Desta maneira limita-se o conceito de latinidade, em vez de se alargar o suficiente para que possa incluir todas as criações latinas.

Este erro que levou ao empobrecimento da noção de latinidade -- pelo menos na linguagem corrente -- é a consequência de um mal-entendido bastante frequente no século XIX: a concepção monovalente, monolítica, de uma cultura, do gênio numa raça, duma civilização.

Na origem deste mal-entendido encontra-se a teoria da ‘dominante’, da ‘faculdade preponderante’, simplificações tão exageradas quanto perigosas.

As relações espirituais são mutiladas pelos esquemas rígidos e simplistas: latinidade -- amor pela clareza; espiritualidade germânica -- propensão metafísica; anglo-saxões -- empirismo; Ocidente -- ação; Oriente -- contemplação, etc.

Não é tão simples como tudo isso. A cultura, o gênio duma raça, não são monolíticos, mas polarizados.

Há na substância de cada cultura uma contradição originária, um conflito, ou melhor, uma ambivalência que apenas encontra equilíbrio em sínteses extremamente raras.

Por exemplo, costuma-se considerar, erradamente, que a contemplação constitui ‘a dominante’ da espiritualidade oriental. Na realidade, em qualquer cultura encontra-se sempre uma ambivalência bastante acentuada: contemplação -- ação, misticismo -- sensualismo; culto apaixonado da ‘forma’ -- repulsa pela ‘forma’, etc. Não é este o momento para entrar em pormenores, basta lembrar que a espiritualidade indiana, por exemplo, não está orientada exclusivamente para a contemplação, para a indiferença perante as coisas terrestres, nem para a busca de um Nirvana qualquer, isto é, para a aniquilação do indivíduo e do mundo exterior; em simultâneio com esta tendência parao afastamento da realidade, depara-se, desde os inícios da cultura indiana até os tempos modernos, com uma forte tendência, igualmente criativa, para a ação, para a conquista da realidade, parao concreto.

Para além dos Upanishadas e do Budismo, existe o Tantra, que se propõe conquistar e dominar a realidade exterior e as forças psíquicas -- para não mencionarmos as escolas materialistas, eróticas e cínicas.

Não nos esqueçamos também que, na obra mais importante da espiritualidade indiana, na Bhagavad-Gitâ, a acção é considerada como um instrumento de salvação, ao lado da caridade e da contemplação.

Por isso, não é exacta a afirmação que o’génio latino’ exclui sempre as criações que não se enquadram no esquema rígido: claridade, equilíbrio, etc.

Trata-se de génio «latino» mesmo quando este se exprime através do patetismo e da auto-ironia de Cervantes, do pessimismo de Leopardi, do fervor de Chateaubriand ou da riqueza confusa de Victor Hugo.

Devo acrescentar até que a missão do «génio latino» foi, sempre, esta mesma propensão para transformar em cultura as experiências mais diversas, as contradições mais inesperadas, as paisagens mais exóticas. Em comparação com outras estruturas espirituais europeias – germânica, anglo-saxónica, eslava – a latinidade manifesta-se como a mais rica, a mais complexa e a que possui uma capacidade ilimitada de se renovar, de se ultrapassar a si mesma e de renascer das suas próprias cinzas. Camões e Eminescu são duas ilustrações grandiosas desta força criadora.

Agora, algumas observações preliminares: há povos a quem cabe uma missão histórica, e outros cujo papel é passivo; estes últimos são povos que não interessam na história.

A missão histórica de um povo avalia-se em função das suas criações espirituais. Só os valores culturais justificam a existência e a missão de um povo. A história não leva em conta os povos estéreis.

Evidentemente, há nações ricas em criações colectivas – como são os tesouros folclóricos; outras há cujas aptidões se desenvolvem no sentido da criação individual, como por exemplo as culturas europeias modernas. Mas, fundamentalmente, trata-se do mesmo «gesto» espiritual: a criação.

As nações latinas herdaram essas esplêndidas tradições criativas.

Não podemos, dentro dos limites deste artigo, analisar se o elemento étnico latino foi ou não um factor preponderante na formação do pensamento e da criação espiritual – a língua, a fé, a cultura, a dignidade humana.

Talvez graças aos elementos autóctones que os colonos romanos assimilaram e latinizaram na Ibéria, na Gália, na Dácia, o génio latino se caracterize por uma extraordinária capacidade de mudança de carácter e de vivência no que respeita aos seus valores espirituais.

Nisto se vê uma grande semelhança entre a missão histórica de Roma e a do génio latino: a assimilação do mundo e a sua transformação em valores espirituais de circulação universal. Roma transformara os bárbaros em cidadãos romanos, transformara uma cultura local em cultura ecuménica: o génio latino transforma em cultura as «paisagens» mais variadas, dá uma significação espiritual até às experiências mais obscuras, mais áridas, mais insípidas.

Chegar a uma tal significação espiritual é chegar a um valor ecuménico, é transformá-la num objecto de circulação universal – ou fazer dela um instrumento de civilização e de dignidade humana. Desde há vinte e cinco séculos, o génio latino esforça-se por imprimir valores espirituais aos «objectos», «gestos», «paisagens» e «experiências» que antes estavam desprovidos de qualquer significado para as consciências humanas.

O Oceano com todos os seus mistérios, com os seus encantos escondidos, com a sua beleza, tinha sido até Camões um «objecto» sem significação espiritual.

O «Mar Tenebroso» era conhecido desde os tempos pré-históricos mas era como que um «dado imediato» da consciência, como um «facto», e não como uma fonte de emoções artísticas.

Uma obra de arte transforma o mundo quando surge; quem lê Virgílio «experimenta» a primavera duma maneira inédita e especial; o génio de Balzac obriga-nos a olhar com encanto para as coisas, as mobílias, o bric-à-brac das famílias burguesas que até ele estavam totalmente desprovidos de interesse artístico.

Dostoievsky convenceu-nos de que o subsolo da alma humana, as experiências que até ele eram consideradas de interesse quase exclusivamente clínico, têm um valor espiritual, um sentido moral e até um significado metafísico. Marcel Proust transformou em valores estéticos, em objectos de contemplação estética o microcosmo da «experiência» humana não-diferenciada e, depois de ler À la recherche du temps perdu ninguém se sente o mesmo, porque Proust modificou realmente o mundo, criando no indivíduo novas capacidades para a compreensão das realidades exteriores e da sua própria alma.

A lista poderia continuar: Shakespeare, Goethe, Novalis, Edgar Poe, Unamuno…

O que Camões trouxe de novo para a cultura universal foi precisamente a transformação em valores espirituais das «geografias» e das experiências anteriormente consideradas «bárbaras» e sem nenhum significado superior.

Rémy de Gourmont escreveu uma vez que o mar é uma descoberta dos românticos. Isso poderia ser verdade para o mar nórdico, embrulhado em nevoeiros, povoado de fantasmas. Mas o glorioso Atlântico e os mares orientais são uma descoberta estética de Camões. Pelo seu génio, graças à sua obra, a paisagem marítima fica incorporada no universo estético e transforma-se em objecto de contemplação, em fonte de emoções artísticas.

Camões justifica no plano estético as descobertas marítimas e as conquistas coloniais portuguesas.

Tal como os navegadores e os colonos portugueses alargaram consideravelmente o universo geográfico do seu tempo, da mesma maneira Camões aumentou o universo estético contemporâneo e, indirectamente, a vida espiritual do seu tempo. Pois é óbvio que a transformação dum nível cósmico em objecto de contemplação artística não é um facto que interesse apenas à história da arte.

Fazer de um «Mar Tenebroso», conhecido até então apenas pelos marinheiros e pelos pescadores, um objecto de contemplação estética, é transformá-lo num alimento espiritual acessível a qualquer pessoa.

Seria ingénuo pensarmos que o alimento espiritual não modifica o ser humano; e seria igualmente ingénuo pensarmos que, se a descoberta da agricultura, por exemplo, revolucionou por completo a natureza humana, a descoberta estética do oceano ou da flora tropical ou do exotismo não tenha tido consequências para a integridade espiritual do homem.

Nós, os modernos, descuramos as consequências cosmológicas de todas as experiências humanas, desde a mais elementar (por exemplo, a alimentação) até à mais complexa (por exemplo, a penetração num universo mental imediato).

Mas a verdade é que a presença deste objecto de conhecimento (e qualquer objecto, logo que adquire um «sentido», torna-se «objecto de conhecimento») modifica a estrutura espiritual do homem, mesmo sem que este se dê conta.

Camões, que alargou consideravelmente o «universo estético» europeu, que deu valor artístico a uma infinidade de fragmentos que antes tinham sido considerados sem interesse estético, que transformou em objectos de contemplação as paisagens bárbaras, as plantas exóticas, as curiosidades etnográficas, – contribuiu para a modificação do universo mental do homem da Renascença.

Não nos podemos alimentar com «a rica Malaca», com «a nobre Taprobana», com «a costa que se chama Champa», com «Bornéu onde não faltam / lágrimas no licor» ou com «Timor que o lenho manda / sândalo salutífero» e não nos alimentamos com… «uma figura sólida e cheia de saúde, de grande porte e disforme, com a cara carrancuda e o cabelo em pé»… sem que sejamos influenciados por todos estes «alimentos» exóticos aos quais Camões tirou as toxinas e a que aumentou a beleza.

Chateaubriand criou a «moda» exótica e Camões justificou com o seu génio uma corrente exótica muito complexa que começou com a apologia do «bom selvagem» no século XVIII e acabou com Gauguin, com a música negra e com a moda da «pele bronzeada» dos nossos dias.

Não se deve perder de vista que também foi Camões quem, com «Aquela cativa», provocou uma verdadeira revolução das normas estéticas europeias. O ideal europeu de beleza feminina tinha sido sempre a loura, desde Helena de Tróia a Isolda, Blanchefleur, Beatriz e Laura.

Talvez tenha sido um símbolo solar ou uma superstição aristocrática, pois a pele branca prova uma ascendência nobre de mulher que não trabalha o campo, mas leva uma vida agradável no seu castelo.

A revolução camoniana consistiu no facto de ter legitimado não apenas as belezas morenas, mas também as belezas bárbaras e exóticas, mulheres negras como «aquela cativa» ou chinesas como Dinamene.

Evidentemente, não se pode esgotar em algumas linhas o interesse da revolução camoniana no seu sentido estético e moral. (Tencionamos tratar mais amplamente este assunto no estudo «A ilha dos amores e as geografias míticas» e no livro Camões, uma tentativa de filosofia da cultura.)

Queremos, no entanto, evidenciar já a missão latina do grande escritor português, que integrou no universo estético europeu inúmeras «terras desconhecidas», que transformou em «bens espirituais» uma infinidade de tesouros desconhecidos, que enriqueceu a substância da latinidade com experiências, com paisagens e com «gestos» considerados até então sem nenhuma possibilidade de serem transformados em objectos de contemplação, em valores espirituais de circulação.

A intervenção de Camões no universo mental europeu permite-nos compreender melhor a latinidade.

E óbvio que esta contribuição de Camões contradiz a fórmula do génio latino reduzido a apenas alguns atributos como a elegância, o equilíbrio, a clareza, etc.

Encontramos um fenómeno semelhante no outro extremo da latinidade europeia: na Roménia.

É o caso do poeta romeno Mihai Eminescu (1850-1889), um dos maiores génios líricos da latinidade, que também contribuiu duma forma extraordinária para o alargamento do horizonte espiritual europeu como «conquistador de novos mundos». Tal como Camões, Eminescu explorou uma vasta e selvagem «terra incógnita» e transformou em valores esprituais experiências anteriormente consideradas como desprovidas de significado. Camões enriqueceu o mundo latino com paisagens marítimas, com flores estranhas, com belezas exóticas. Eminescu enriqueceu o mesmo mundo com uma novidade geográfica, a Dácia, e com novos mitos.

Evidentemente, antes dele, a poesia popular romena – uma das mais ricas do mundo – tinha criado com os mesmos materiais certas obras-primas; Eminescu não é apenas um continuador dessa inspiração popular, mas também um génio autónomo, criador de mitos.

A Dácia era para os primeiros colonos romanos um país bárbaro povoado pelos citas e pelos getas, sacudido pelas tempestades de neve que vinham das estepes russas.

Lembremo-nos dos lamentos de Ovídio no seu exílio em Tomis (Constan a de hoje), à beira do Mar Negro: «Este céu e estas águas são insuportáveis. Não sei porquê, até esta, terra me repugna» (Tristes, III, 3).

E ainda: «Aqui não há nenhum livro que nos sirva de alimento espiritual; ninguém a quem possa ler os meus versos ou que seja capaz de os compreender. À frente dos olhos só vejo trácios e citas» (ibidem, III, 14).

Em resumo, um país bárbaro, fora da civilização. Bárbaro significa em grego «o que gagueja», quer dizer, que não se exprime correctamente.

As legiões de Trajano, o génio colonizador de Roma, a civilização latina transformaram esta região bárbara na Dacia felix, na mais rica província do Império romano.

A língua latina, criando uma outra língua, a romena, ajudou os habitantes da Dácia a expressarem-se, correctamente, noutras palavras, a perderem o seu «gaguejo» de bárbaros.

Tal como as legiões romanas as englobaram na civilização europeia, o génio criador do povo romeno englobou na cultura europeia uma nova paisagem e novas experiências espirituais.

Através de um poema de Eminescu, Prece de um Dácio, a sensibilidade latina ficou enriquecida com uma visão da vida que não se assemelha a nenhuma das dos poetas pessimistas da Europa.

A sua obra prima, Luceaf rul («Vésper»), pode ser considerada como um dos mais belos poemas da literatura universal e a sua metafísica, a dimensão cósmica do drama de Hypérion, a beleza estranha, dir-se-ia litúrgica, dos seus versos, são acréscimos ao universo mental da latinidade. Esta «geografia bárbara», que era a Dácia para os primeiros romanos, deu origem a uma experiência pessoal da vida, a uma Weltanschauung específica, a uma atitude característica perante o Universo e perante Deus.

Através de alguns magníficos poemas de Eminescu – como, por exemplo, Melancolia, Mortua est, Epístola I, Doina, Glosa – um mundo inteiro, antes desconhecido, entra no património comum da humanidade.

Uma doce resignação ante a evolução universal, um melancólico desejo de reintegração no Cosmos, de restauração da unidade primordial (quando o indivíduo fazia ainda parte do Todo), um sentimento de solidão metafísica e
especialmente a inefável saudade romena enriqueceram o repertório espiritual latino.

O pessimismo de Eminescu tem origem numa visão trágica da existência, mas esta visão é sóbria, digna, viril, e nela reconhece-se a resignação calma dos dácios e o seu desprezo pela morte e pelos sofrimentos físicos.

O génio latino enriqueceu-se através da criação poética de Eminescu tal como se enriqueceu através das obras de Camões.

Estes dois exemplos são suficientes para nos convencermos de que o «génio latino», longe de se repetir indefinidamente através de criações estereotipadas, possui, pelo contrário, uma prodigiosa capacidade de renovação, transformando sem cessar as matérias brutas em valores espirituais, absorvendo incansavelmente «novas geografias» e novos universos espirituais.

O universo mental da latinidade é um expanding Universe em perpétua transformação e movimentação.

Só quem desconhece a riqueza e a variedade das criações da latinidade pode acreditar na esterilidade do seu génio. Só quem aprecia o génio latino apenas em função de certos escritores franceses e reduz a latinidade ao binómio Racine – Paul Valéry pode acreditar no esgotamento da capacidade criativa da espiritualidade latina.

Pelo contrário, a existência de um Unamuno, de um Rebreanu, de um Italo Svevo, etc. – para falar apenas em alguns dos prosadores contemporâneos – confirma o vigor, a variedade, a altura de nível da criação latina recente. Realmente, os nomes que acabo de citar constituem, dentro da mesma família, três variedades totalmente diferentes.

É, no entanto, óbvio que, para nos darmos conta da verdadeira estrutura do génio latino e para compreender bem a sua missão, é necessário renunciar aos nossos cosmopolitismos mentais e pensar nas realidades, deixando de lado as fórmulas já consagradas e as palavras sem sentido.

Pensar nas realidades implica um conhecimento directo das coisas, – conhecimento que, infelizmente, poucos têm.

Somos os escravos dos modelos estrangeiros; somos clientes fiéis das livrarias francesas, onde não se encontram autores portugueses, romenos, italianos ou espanhóis. E, por causa desta ignorância – que se deve à nossa facilidade de conhecermos o mundo através de apenas uma língua ou duas – nós, os latinos, sofremos hoje de um complexo de inferioridade.

Cada um de nós sente-se empobrecido; mas os únicos responsáveis por este empobrecimento somos nós, pois ninguém nos impede de aprendermos outras línguas românicas, de conhecermos outras espécies de espiritualidade latina.

O «génio latino» continua a criar e a alargar o universo mental da humanidade. Hoje, tal como no passado, são válidos os versos do poeta romeno Vasile Alecsandri:

«A latina tribo é rainha/Entre as outras grandes do mundo».

Revista Vremea, ano XVI (1943), 9 de Maio, No. 687, pp. 8-10. Tradução do romeno de Anca Ferro

 



O Diário de Jean Guitton

O Diário de Jean Guitton, mestre e filósofo, membro da Academia Francesa, está entre os melhores de que se sabe. Nós poderíamos notar somente alguns tão bons quanto o seu: os Cadernos de Paul Valéry, o Journal de André Gide, os Diários de Mircea Eliade, o Journal de Charles du Bos, o colossal diário de Julien Green.

Nele J. Guitton rascunha suas reflexões ao acaso, suas recordações e impressões de lugares visitados; das recordações faz as cores para lançar à tela íntima experiências que porventura comovem o leitor, não mais pelo estilo que pela sinceridade de quem diz a si mesmo, sabendo-se testemunhado a não ser no futuro, quando o texto já parecerá tão velho. Não o homem. Jean Guitton, que viu praticamente todo o século XX, tendo nascido em 1901 e morrido aos quase 100 anos, mostrou-se sempre um estudante -- aquele que jamais deixa de aprender, e de duvidar, sobretudo -, sobremodo dos caros assuntos desse século. Foi o único leigo convidado a participar do Concílio Vaticano II, e a ele se referia o Papa João Paulo II como Mestre. Em seu diário, Guitton nos faz chegar à fonte do aprendizado: a experiência, contando-nos a sua própria. Sua humildade, a de quem sofre; sua força, a de quem nunca deixou de duvidar, e sobre a dúvida assentou sua Fé.

 »Em uma tarde de Setembro, no ano de 1915, retornando de um passeio no campo, tracei quaisquer linhas sobre uma folha branca para me recordar de mim e das coisas. Desde esse gesto sem pretensão, quase não parei jamais de ter, como se diz, um Diário, não querendo fazer perder o que há de efêmero em minha vida. Eu havia copiado no rodapé do primeiro caderno, para me dar paciência e coragem, esses versos que sempre amei reler:

E assim, seja fiel ao teu gabinete de estudos
Tome-o para cada dia de um estrito hábito
Um tempo para a solidão e o pensamento.
Não os abra senão a raros amigos, tua casa e coração
Pois são raros os que sem outra razão
Te procuram por ti mesmo e em toda estação.
Quanto aos livros, amigos mudos, faça a soma
De todos os que em um dia se renovam célebres
E seja ainda aqui econômico com o teu tempo.

Eu teria desejado tanto, como Montaigne e Marcel Proust, não lançar mão de uma só obra; tinha a começado após quarenta anos, então pela segunda e verdadeira partida, o preenchimento pelas margens de edição em edição, lembrando sempre as mesmas coisas com um aumentado conhecimento. Pois a existência é um todo indivisível. E o tempo é um espaço profundo, feito de momentos distintos mas que é preciso tentar enxergá-lo de um só golpe. E o que um autor nomeia como ‘maus livros’, são pedaços recortados dentro desse grande todo. A necessidade se lhe sujeita a isolar um fragmento desse todo, a lhe dar uma unidade excessiva: e faz-se então uma obra de espírito, um livro, como se diz. Mas o verdadeiro modo de fazê-lo seria ter todos os gêneros e de causar uma conversação tão longa, sinuosa, ininterrupta como a existência. Para mim, pelo menos, que nunca considerei meus livros mais que como acidentes, como ‘inconsiderados resultados’ desse sonho austero, que não deve se desafeiçoar de minha vida. E eu penso que eles se parecem apesar de sua diversidade. Se eu os fiz diferentes, é justamente para que eles sejam mais convergentes aos olhos daquele que sabe. Eu me os represento às vezes, meus livros, como poças d’água na noite após a tormenta, cada uma refletindo meu céu inteiro com minhas constelações. Tenho o sentimento vívido desse caractere de soma e reflexão que possui cada coisa, cada evento, cada ser. E ele me lembra sempre que, se se sente uma só coisa no mais íntimo, sentir-se-á tudo, nele ou por dele: o que faz o amor através de um ser eleito.

Diário? Ou melhor dizendo Excertos de um Diário feito por seu autor. Lancei mãe de um grande número de páginas, aquelas que não faziam sentido senão para mim. Retive o que estava de acordo com a unidade de meu espírito, em seu ponto de convergência final. São esses meus fragmentos, húmus da árvore do pensamento, minhas migalhas, minhas sementes: terra vegetal, feita de reflexões, de lembranças, e também de conversas com inúmeros personagens que eu admiro. Eu não acho nada de tedioso nesses Diários que podem em vós não surtir efeito. Escrever, é escolher e passar. Em um Diário, como em um poema, pode-se permitir longos silêncios, interrupções bruscas. Se está liberto de transições, de apresentações e dessa matéria de conjunção, tão longa no preparar e no modelar. Joubert dizia que ele precisaria escrever como pensam os anjos, com harmonia,  »de maneira que as coisas se sucedam ordenadamente, mas comodamente e sem intervalos, sem se tocar, sem se confundir, portanto não sem se seguir, se acordar e se combinar ». Ele dizia ainda que lhe convinha escrever  »após um longo repouso da alma e como se numa recordação ».

Verá o leitor sem dificuldade que sou guiado pela busca de uma sabedoria, de uma arte de vida. Que me apetece, portanto, este dito de Nietzsche:  »Minha mácula é de deixar vicejar em maturidade e doçura o fruto de minha existência sem que o envolva nada de azedo, tampouco de amargo ».

O método de vida que é aqui proposto é o de um regresso na direção do nascedouro, do núcleo, do gérmen. E, bem que tive a firme resolução de não falar absolutamente aqui de filosofia, o fundamento deste Diário é uma reflexão sobre o Ser. Isso me faz lembrar que o que há de mais periculoso em nossa época são os vínculos que outrora ligavam o espírito à coisa, o homem à natureza, o filho à mãe, o cidadão à pátria, os exercícios de espírito à existência. É o amor cotidiano, a existência ordenada, cinzenta e esplêndida, o país, a terra, a religião vivida no tempo, -- a ‘encarnação’ carregada sob todas as suas espécies e formas. O que é refúgio, seio, asilo seguro, floresta, bosque, terra, tudo isso tende a desaparecer. Não temos mais paz, mas somente excessos que se sucedem e se compensam. As Mães desapareceram, e de uma maneira geral o respeito, o pudor, a moderação. Este Diário irá chocar por um escândalo dificilmente perdoável: aquele de crer ainda na simplicidade do ser.

Quando fazer um talhe no passado? Eu creio que, para se recordar com efeito, com exatidão, com tranqüilidade, é preciso que o passado não esteja longínquo. Mas, se o passado é ainda recente, se os ligamos com o presente estão bem vivos, o Diário é como uma cicatriz. Cinco anos é um razoável recuo. Mas, não me proíbo de folhear os cadernos mais antigos e de bem rememorar quaisquer datas: tudo está sempre presente.

Escrever um diário, é reproduzir a curva sismográfica, o tremor discreto de sua vida. »

Pretendemos lançar novos excertos do Diário de J. Guitton, bem como as mais preciosas páginas de seus livros mais prediletos.

Grato,
José Santini



Apresentação

Eu pensava há muito em um blog pessoal. Primeiramente, para nele publicar as melhores traduções de escritores e filósofos sem edições em língua portuguesa; depois, para tornar público pensamentos seletos e eventuais ensaios, bem como possíveis artigos sobre atualidades do jornalismo, em especial dos jornais e revistas internacionais.

Dos leitores, imagino um perfil de interessados em alta cultura, na vida de pensadores ignorados em boa parte pelos editores brasileiros; pelos estudos nas áreas de Religião, História, Filosofia, Literatura e Arte. E sobretudo naqueles que pretendem, como eu pretendo, estabelecer contatos com o Velho Mundo através dos melhores veículos de comunicação e das pessoas, que não obstante em meu país sejam desconhecidas, lá se dignam de todo o mérito por sua dedicação e seu trabalho.

Não temo senão pela exposição pessoal em domínio público. Mas não farei do espaço um diário íntimo.

A internet, creio, está como uma das grandes invenções do homem. Que instrumento útil de fazer-se avaliar pelos outros!

Grato,
José Santini

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